sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Aonde vai o amor? [+QP]

"Eu te amo", ele dissera, na última vez em que se falaram.

Era mentira, mas ela não sabia ainda. Talvez um dia tivesse sido verdade, mas ela nunca teria certeza. Mesmo que ele jurasse; uma vez que a mentira escorregava para fora, ficava difícil colocá-la para dentro outra vez. Não saberia quando ela saíra e há quanto tempo andava fazendo estragos na vida alheia.

Aquela não foi a primeira mentira, tampouco foi a maior delas. Mas foi um símbolo e foi memorável. Naquele mesmo dia, ele saiu da casa dela para a casa da outra. Fazia isso já há algum tempo, achando que nunca seria descoberto, achando que era algo normal. Todo mundo mentia, certo? Todo mundo traía. Se ela descobrisse, negaria. Era fácil. Afinal, ela o amava. Quem ama perdoa.

Dois dias depois, ela acabou tudo. O motivo? Falta de amor. Ou excesso de amor próprio. Quando ela ficara sabendo da grande mentira que vinha vivendo, pensou na pequena mentira que ele dissera, aquele dia. Não amava, afinal. E, um dia, ela também não amaria mais. Por enquanto, ainda sofria a dor da decepção, do desespero, da desilusão. Mas ia passar. E, neste dia, o amor teria ido embora também. Como o pássaro que escapa da gaiola e não volta nunca mais.

Para onde vai? Ninguém sabe ao certo. Mas, com alguma sorte, não ficaria nem a lembrança.

"Love has a nasty habit of desapearing over night"

Essa postagem faz parte do Projeto Mais que Palavras.
Veja também: Usando Palavras | Meia hora em Paris
Imagem: Flickr - Creative Commons

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O maior e melhor


Se você não aguenta sol, calor e multidão, definitivamente o carnaval de Recife e Olinda não é para você. Mas se você, assim como eu, acha que certas coisas valem a pena, deveriam estar aqui no carnaval. Deveriam vir ver pessoalmente, porque não dá para descrever o que acontece. No momento, eu estou a um passo da insolação, na base da água de coco e do caladryl. Mas, como eu disse, há coisas que valem a pena. E para participar não ver; participar  do carnaval daqui, tudo vale a pena.

O nosso problema, dos recifenses, é que, além de muito bairristas, nós sempre queremos ser os maiores ou melhores. É o maior shopping do Brasil (já foi, mas deve ter perdido o posto), a maior avenida em linha reta da América Latina. Até das coisas ruins já vi gente abrir a boca para falar, com certo orgulho. E nós temos o maior bloco de rua do mundo: o Galo da Madrugada.

Essa semana, eu li uma postagem de um amigo que comparava o Galo a um monumento histórico. Com a pequena diferença de que os monumentos são perenes e o Galo, com toda a sua excentricidade recifense, é reconstruído todo ano de uma maneira diferente, apenas para o carnaval. O maior monumento montado e desmontado a cada ano; o maior ponto turístico móvel instantâneo; o maior bloco de rua, com mais gente pulando e gastando a sola do sapato pelo asfalto, com mais bonecos coloridos com cabeça de papel marché, com mais gente fantasiada das maneiras mais criativas, sem precisar pagar nada para brincar. O maior Galo do mundo, que atrai pessoas de todos os lugares a cada carnaval. Para depois sumir e renascer, como uma fênix, todos os anos.

Este ano, eu fui ver o Galo. E é lindo. Não fui para camarote, porque carnaval do Recife e Olinda se pula no chão. Passei mal com o sol, me queimei, desidratei. Mas valeu a pena, porque sempre vale. Depois, fui para Olinda, porque a festa tem que continuar, nas ladeiras, nos outros blocos, com outras cores. Sou mesmo bairrista. Somos bairristas e nenhum lugar, para nós, nunca será melhor que aqui. Tenho um orgulho imenso do meu Recife, do nosso carnaval.

O melhor carnaval do mundo.

Imagem: Bruno Silva

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

12 maneiras de guardar livros

Corrija-me se estiver errada, mas eu acho que todo amante de livros passa a vida sonhando com duas coisas: ler todos os livros que tem vontade e comprar todos os livros que tem vontade. Os amantes de livros físicos, além desses, ainda têm um sonho a mais: ter aquela estante grande, linda e lotada de livros em sua casa. Daquelas iguais à do castelo da Fera, em a Bela e a Fera. Em vez disso, muitas vezes acabamos acumulando livros desorganizadamente em cima da mesa, no chão, em pilhas em cima da escrivaninha, um por cima do outro, entulhados em estantes pequenas.

Não vou nem mandar foto da desorganização em que estão meus livros. Acabei resolvendo um pouco do problema começando a ler e-books, mas claro que não é a mesma coisa. Quem gosta de paperback, precisa pegar um livro nas mãos, de vez em quando, só para matar um pouco do vício.

Navegando pela internet, acabei encontrando umas dicas muito interessantes de designes de estantes de livros. Como sonhar não gasta nada, resolvi separar algumas das minhas favoritas para vocês:

1- Piano velho

2- Escadaria de livros

3- Cadeira-estante

4- Estante invisível

5- Para quem tem gatos

6- Lâmpadas coloridas

7- Equilíbrio

8- Parede de livros

9- Balança

10- Canos industriais


11- Árvore

Conheço gente que vai adorar essa:
12- Doctor Who

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Vigília [+QP]

Era só um trabalho. Desde que fui promovido, há três anos, saí do ofício de fiscal dos portões principais para me tornar responsável por algumas vidas. Não, não era tão emocionante quanto parecia. Basicamente, meu trabalho consistia na difícil tarefa de passar o dia sentado na frente de uma tela minúscula e só sair para evitar que pessoas fizessem tolices que custassem suas vidas. E elas costumavam fazer muita tolice. Depois de um tempo me aborrecendo com tanta estupidez, acabei entendendo um pouco como funcionava a cabeça dessas pessoas, suas intenções e seus propósitos. Acabei aprendendo sobre uma sensação estranha, que eles chamavam de amor.

Aconteceu naquele dia, quando uma garota, uma das minhas protegidas, foi abandonada num bar pelo cara que estava com ela. Namorado? Marido? Nunca sei a diferença. Curiosamente, em vez de ir embora, ela ficou lá ingerindo álcool. Isso me chamou a atenção porque ela era daquelas certinhas, que não me davam muito trabalho. Eu gostava dela por isso. E porque tinha um rosto delicado e modos sutis; era agradável de se observar. Naquele dia, vi-a entornar o oitavo copo de vodka pura, aquele veneno que eu estava certo de julgar ser produzido nas destilarias mais profundas do inferno. Não sabia por que ela estava fazendo aquilo. O cara era um babaca, ela devia estar aliviada.

Mais algumas doses como aquela e ela acabaria entrando em coma alcoólico. E eu que achava que o dia seria tranquilo. Ergui-me do sofá, chutando do chão algumas latas de cerveja, outro veneno que descobri depois que assumi essa função. Em minha defesa, meu corpo não era tão frágil quanto o deles e o trabalho aqui podia ser bem entediante.

Desci as escadas lentamente, estranhando sentir as palmas das minhas mãos suarem e a respiração faltar. Podia ser culpa do ar rarefeito, ali em cima. Mas vivi tantos anos ali, não era possível que estivesse sofrendo problemas de altitude agora, ou era? Ou seria porque ia vê-la? Aquele pensamento vindo do nada me confundiu. Que inferno, era só uma garota. E bastante mortal, naquele momento de ausência de senso de autopreservação.


Avistei o bar e entrei, batendo a porta atrás de mim e procurando-a no ambiente esfumaçado. Acabei localizando-a perto do balcão e estaquei, apreensivo. Era ainda mais linda pessoalmente; os cabelos suaves cobrindo parte de seu rosto. E havia algo na sua expressão dolorida que provocou um aperto em algum canto dentro do meu peito. Já estava sentindo tanta coisa bizarra que resolvi ignorar tudo.

Recuperei meus passos e fui até ela, sentando-me num banco ao seu lado, sem nada dizer. Minhas palavras haviam sumido. Seus olhos turvos e vermelhos ergueram-se da bebida e dirigiram-se para mim, olharam-me como se estivesse reconhecendo ou lembrando-se de algo. Então, a despeito das lágrimas, ela sorriu. E, naquele instante, eu só tive uma certeza: nem nos melhores dias, lá em cima, eu tinha visto algo tão lindo.

"You're the closest to heaven that I'll ever be"


Imagem: Flickr - Creative Commons


Essa postagem faz parte do Projeto Mais que Palavras.
Veja também: Caligrafando-te | Alesca Larissa

domingo, 24 de janeiro de 2016

Acordando acordes

Sempre que ouvia os primeiros acordes do violão, ela corria para a varanda. Morava ao lado, a uma parede de distância; não podia vê-lo. Mesmo assim, sentava-se no chão frio e acompanhava o dedilhar das notas, quase visualizando a figura sentada numa cadeira, braços em volta do violão, olhos fechados, o som produzido desenhando uma paz evidente em sua expressão.

Podia imaginar os dedos longos tocando cada corda com firmeza, sentindo a tensão de cada uma, como se fizessem amor. Parecia conhecer cada acorde, cada som, como se o violão fosse parte dele. Tocava cada compasso como se os dedicasse a alguém. E ela gostava de sonhar que era pra ela. Que cada declaração feita pela melodia era pra ela.

Declarações, mas nem sempre havia letra. Era como um exercício, que ele repetia vez após outra. Estava claro que queria memorizar a sequência, mas parecia que tinha intenção de fazer o ar da noite decorar também. Ela não era o ar da noite, mas sabia tudo de cor. E continuava ali, invisível. Só queria que ele soubesse...

E ele, abraçado ao seu violão, alheio ao fato de que povoava os pensamentos de alguém sentado muito próximo, cantava um sentimento que não conhecia. Não sonhava com esse amor eterno de que falava a canção, só queria encontrar alguém que entendesse sua música. 

"Se, algum dia, eu vier ao clarão do luar
Cantando, e aos acordes de uma canção te acordar..."

Texto publicado em junho de 2010