sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Momentos e música*

Uma vez, alguém me disse: "não associe uma música a alguém" e eu sempre soube que essa pessoa tinha razão. Mas é difícil; a gente termina associando tudo nessa vida e eu sou dessas que associa tudo a música. Então basicamente esse é um desafio que eu nunca cumpri. E esse é um dos motivos pelos quais eu choro por tudo, por nada. Esse e o fato de eu ser mole mesmo. O problema é que, por já ter nela meio intrínseco esse componente emocional, a música meio que preenche as lacunas de sentimento que falta. Aí a gente traz para junto, para dentro, para a vida. Associa. Perde e chora.

Uma vez, aconteceu de eu gostar muito de uma pessoa que me emprestou um CD. Só que a pessoa não gostava tanto assim de mim e isso foi bem ruim. Foi embora, mas as músicas do CD ficaram. Passei muito tempo para conseguir dissociá-las da pessoa, ainda mais porque elas só falavam em sentimentos fortes, amor e perda. Consegui, enfim, desligar as músicas da pessoa, mas elas ficaram irrevogavelmente ligadas àquele momento.

Hoje, eu sinto um grande carinho pelas músicas. Hoje, elas não machucam. Acho que ligar música a momentos faz essa coisa de associar música a pessoas daquele momento ser mais suportável. Momentos criam saudades saudáveis, fazem parte da nossa vida e, mesmo que doa, a dor ameniza e a lembrança fica. A música fica e adquire um sabor melancólico. A música fica com o momento e permanece. E os momentos são nossos. As pessoas, elas não são de ninguém.
"And the songbirds are singing

like they know the score"


Imagem: Flickr - Creative Commons
Música: Songbird
*Texto publicado em 2014

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Desafio Literário 2017

Como em todo ano, logo no início de janeiro eu costumo apresentar o Desafio Literário que eu pretendo seguir durante o ano. Este ano, eu propus o Desafio Literário do Blogs Up, que é um grupo focado na interação entre blogueiros. Apesar de o Desafio ser exclusivo do grupo, tomei a liberdade de convidar a participar todos aqueles que tiverem interesse.

Seguem os temas:


1- Contos
Histórias curtas podem ser o primeiro passo para se conhecer um autor. Leia um livro de contos de qualquer autor que você deseje.


2- Assunto polêmico
Drogas, religião, política. Leia um livro sobre algum assunto polêmico.


3- Escrito há mais de 100 anos
Tire a poeira do armário. Um livro antigo pode ser uma excelente leitura.


4- Escolhido pela capa
E aquele livro que você acabou comprando porque gostou da capa? Chegou a hora de começar a ler.


5- Fantástico!
Realismo fantástico, dark fantasy, fantasia urbana, fantasia épica. Leia um livro que desafie a realidade.


6- Com uma cor no título
Vamos colorir o mês lendo um livro que tenha uma cor em seu título. Pode ser em qualquer idioma.


7- De autor brasileiro
Para provar que também temos excelentes autores no Brasil, chegou a hora de ler um livro nacional.


8- Escrito por uma Mulher
Virgínia Woolf, Jojo Moyers, Clarice Lispector, J. K. Rowling. Girl power. Vale qualquer estilo, o importante agora é que a autora do livro seja uma mulher.


9- Adaptado para o cinema
O que é melhor, o livro ou o filme? A gente só vai saber quando ler. Leia um livro que virou filme.


10- Clássico
É sempre bom ler os clássicos. Chegou a hora de conferir por que aquele livro virou referência literária.


11- De um autor iniciante
Também temos que dar uma chance a quem está começando. Tem muito autor bom chegando por aí.


12- Distopia
Um futuro imaginário, um passado ou presente em que os personagens vivam em situações de opressão ou privação. Leia um livro que se passe em um cenário distópico.

O Desafio Literário é um método para você se desafiar a ler mais e melhor através dos temas propostos para cada mês. Você não precisa ler necessariamente na ordem; o objetivo é ler pelo menos doze livros por ano, um livro por tema, um livro por mês. E não valem releituras.

Para participar, basta você fazer sua publicação uma vez por mês (se houver atraso em algum mês, pode postar duas no seguinte) usando a hashtag #DLBlogsUp. Pode ser no Instagram, no Facebook, no seu Blog ou em qualquer rede que você quiser.

Não existem perdedores no Desafio Literário. A intenção é apenas ler mais.

E que comecem os jogos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Um cAUso

Dizem que cachorros sentem as nossas emoções e agem de acordo com elas. Ouvi uma pessoa falar sobre isso hoje e lembrei de um episódio que aconteceu comigo, há alguns anos.

Fazia apenas alguns dias que Willy, meu yorkshire, tinha acabado de morrer. E eu fui visitar meu primo, que tinha um cachorro. Por acaso, ele também era um yorkshire e já tinha esbarrado com o meu em algumas ocasiões, na praia. Na mesma hora eu lembrei de Willy e fiquei bem triste. Existe uma espécie de vazio que um bichinho deixa na gente e não é facilmente preenchido.

Eu conhecia o cachorrinho do meu primo e sabia que ele tinha uma personalidade bem diferente de Willy, que era amigável com estranhos. O york dele era manso, mas não era de fazer festinha ou ser carinhoso com quem não era o dono.

Só que, neste dia, algo aconteceu. Eu estava sentada numa cadeira e o cachorro olhou para mim, que tentava fazer um carinho nele, já sabendo que seria ignorada. Então, ele pulou no meu colo. E suportou o carinho por algum tempo, até que desceu. Meu primo ficou confuso, dizendo que não era do feitio do cachorro. Mas ele foi o primeiro a entender:

- Cães sentem quando a gente está triste - ele disse. - Eles entendem.

E é verdade, ele entendeu. Entendeu o vazio que havia e que ele podia aliviar me dando um segundo do carinho dele.

E ele me deu.

Willy

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O primeiro passo

Há algo de mórbido em se interessar por uma pessoa porque ela parece triste. Mas eu admito que me aproximei dela porque algo na expressão desamparada e nas lágrimas silenciosas me despertou a irresistível vontade de salvá-la. De ser seu protetor, abraçá-la, arrancar tudo o que se passava de ruim dentro dela e levar um sorriso àquele rosto.

Ela estava num bar, tomando o que parecia ser a sétima dose se tequila. Tequila era uma bebida conhecida por ser tomada em comemorações; quando alguém passava em um concurso, quando se formava na faculdade, quando seu melhor amigo anunciava que ia se casar. Mas eu sabia que ela não devia estar comemorando nada, era meio óbvio. Mesmo assim, por algum motivo, ela virou mais uma dose dos copos enfileirados à sua frente e enfiou um pedaço de limão na boca.

Seu olhar estava perdido nas garrafas da prateleira do bar, à sua frente. Não que ela as observasse; era como se o olhar sem cor passasse através dos rótulos amarelados. Ela estava ali e não estava. Talvez não quisesse estar. Mas eu queria. Queria que ela visse o que passava ao seu redor, queria que ela olhasse e realmente enxergasse alguma coisa. Queria chamá-la de volta à vida. Vida que ela estava perdendo nesses instantes de autopiedade.

Queria que ela me visse.

Não sei como consegui dar o primeiro passo, mas depois dele foi fácil chegar até ela. Aquele primeiro passo foi talvez o mais difícil da minha vida. Mas nunca me arrependi.
Imagem: Flickr - Creative Commons
"Don't you cry tonight"

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Essa é uma postagem do Projeto 642 coisas - 210. Eu não me arrependo.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A última nota

Da música nasci e da música morreria.

Foi em um quartinho dos fundos de uma escola de música que eu fui concebido. Meu pai era professor de piano e minha mãe uma das faxineiras do local. Cresci envolvido em música e fiz dela minha vida. Gostava particularmente de Bach, por suas notas mais dramáticas. Suas peças tinham algo de melancólico que me encantavam desde criança. Sempre achei que havia algo de belo na tragédia.

Com onze anos, já era o melhor da minha turma de violino. Com vinte e um, tocava em concertos e em um restaurante chique na parte alta da cidade. Se antes era um prodígio, a vida adulta me fez perceber que eu era só mais um entre tantos, todos vivendo em busca do pagamento no fim do mês. Mas ainda amava o que fazia e isso me trazia algum consolo.

Casei-me, tive filhos, me separei. Meus pais morreram de tuberculose. Comecei a tocar em um navio porque o salário era razoável e a comida era boa. Ao fim de cada viagem, seguia para casa sozinho. Cheguei a um ponto da vida em que ninguém mais esperava por mim no porto, quando atracava. Isso era bom e era ruim, porque não deixava saudades. Todos viviam suas vidas sem mim e sem mim continuariam vivendo.

E, com aquele sentimento agridoce, de não saber se me sentia feliz ou triste, observei o chão inclinar-se e a água começar a invadir os meus sapatos de verniz. Enquanto o navio afundava e eu tocava a minha última peça de Bach, eu só consegui pensar nisso:

Não deixaria saudades.


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Essa é uma postagem do Projeto 642 coisas: 228. A orquestra do Titanic continuou tocando enquanto o navio afundou.