quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Desafio Literário 2019


Todo início de ano, eu venho aqui falar do Desafio Literário que eu vou seguir durante o ano. Nos anos anteriores, eu segui meu próprio Desafio, por não encontrar nenhum que me agradasse e porque queria lançar meus próprios desafios. Este ano, porém, resolvi fazer diferente. Tanto para me incentivar mais, por ter mais leitores participando, mais livros, mais sugestões... Quanto para me desafiar a ir atrás de novas perspectivas de leitura, novos temas, novas ideias.

Tenho seguido os Desafios bem capengamente, por vários motivos. Um deles é porque não consegui ler muito, por estar me dedicando a escrever meu romance. Outra é porque me mudei no meio do ano passado e acabei sem tempo de ler os livros que tinha separado pro Desafio. Acabei lendo outras coisas e comprando livros no Kindle. Estou ainda sem meus livros físicos, porque não consegui trazer muita coisa pra casa nova.

Enfim, o desafio que eu escolhi é do vlog Literature-se, da Mell Ferraz. Mell é uma booktuber que comecei a seguir recentemente, depois de ficar órfã da booktuber que eu adorava (e que acabei descobrindo que era eleitora do omi e aí não dá, né?). Foi então que comecei a procurar booktubers legais e cheguei na Mell.

A parte boa disso é que encontrei vários blogs e vlogs literários nesse processo e autores brasileiros que estão escrevendo seus romances, como eu. E eu quis fazer parte disso tudo mais uma vez, quis voltar aqui e retomar minhas resenhas, meus textos e meus leitores.

Então, sem mais conversa, segue a lista do Desafio:

1- Uma história muito conhecida (nem tanto pelo livro)
2- Tragédia
3- Bildungsroman
4- Folhetim
5- Literatura gótica
6- Literatura fantástica
7- Distopia
8- Roman à clef
9- Intertextualidade
10- Nouveau roman
11- Contos
12- Poesias


Os itens são bem teóricos e a intenção é essa mesmo, conhecer conceitos e novos estilos. Estudar um pouco sobre movimentos literários. Para mais informações e dicas sobre o Desafio, é só clicar AQUI.

E vamo dar início ao ano? Vamo!

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Diário de Escrita

Houve um tempo em que eu preferia escrever à mão, com papel, lápis e borracha. Às vezes, caneta. Pegava um caderninho, folhas de fichário e me trancava no quarto para escrever. Minhas primeiras histórias foram escritas assim. Até que eu comecei a aperfeiçoar minha escrita e percebi o quanto era difícil fazer a revisão com papel e caneta. Botava um asterisco onde queria escrever mais, páginas a mais no meio do parágrafo, grampeava em cima, fazia anotações nas entrelinhas, colava post its. O negócio virava uma maçaroca horrível de organizar depois. Foi quando comecei a passar as histórias para o computador e, tempos depois, escrever direto nele. E percebi que as ideias fluíam melhor assim, porque a gente digita muito mais rápido e os pensamentos não se perdem no caminho.

Então, parei completamente de escrever à mão. Até agora.

Veio essa moda dos bullet journals. Eu sempre adorei enfeitar caderninhos, mas nunca me interessei por fazer nada do tipo: diários para acompanhar os dias, monitorar humor, planejar a semana. Apesar de precisar urgentemente de um planejamento. Mas sabia que não teria tempo, paciência e seria um hábito que eu tenderia a largar logo.

Até que vi Thiago d’Evecque (inclusive recomendo demais o blog dele #FollowFriday) falando sobre Diário de Escrita. Mas o que é isso?


É um acompanhamento diário de qualquer coisa que você esteja escrevendo. Pode ser de várias formas: em um caderno, no blog, no vlog, no Instagram, na Página de Facebook, no Word, no bloco de notas, com texto corrido, itens, imagens, listas, vídeos. No Google, você pode encontrar vários tipos diferentes de Diário de Escrita e escritores dando dicas de como fazem.

Para acompanhar e incentivar o desenvolvimento do meu segundo livro, eu resolvi começar um Diário de Escrita. Como senti saudade de escrever à mão, peguei um caderninho, comprei uma caneta bonita e comecei a trabalhar nele. Data em cima, texto corrido falando sobre o que eu escrevi, o que pretendia escrever, os personagens, a trama, o roteiro da história.

Mas para que eu estou fazendo isso?

Então, eu tenho tido com este livro mais dificuldade que com o primeiro. O Diário de Escrita tem servido como alívio criativo, onde eu vou vomitar meus conflitos, as dúvidas em relação à história, frustrações e tudo o que eu acho que esteja me travando. E também o que me liberta.

Gosto de colocar o que eu fiz naquele dia que de alguma forma possa ter me inspirado; um passeio com o doggo, uma conversa, uma música, um filme, uma imagem. Coisas que eu posso dar um jeito de repetir em momentos de hiato. Com ajuda do meu Diário de Escrita, já reescrevi a história, já mudei o foco, já formulei outra trama, elaborei um roteiro inteiro.

Além disso, serve também para acompanhar a progressão do livro com marcadores de palavras. Uso um marcador para meta, total diário e total geral de palavras. Assim, também dá para fazer uma relação posteriormente da quantidade que eu escrevi com as informações que eu coloquei no diário. E aprender sobre mim e o que me inspira.

Para quem gosta de bullet journal, dá pra fazer uma graça com marca textos, fitas adesivas, adesivos, imagens. Por enquanto, o meu está bem normalzinho, porque mal tenho tempo de escrever mesmo. Eu só grifo as coisas mais importantes, úteis, para ser mais fácil de encontrar depois.

Enfim, se você é escritor, o Diário de Escrita é uma ferramenta interessante para acrescentar no seu hábito de escrita. Eu achei uma boa dica quando descobri. Espero que vocês também achem.

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quinta-feira, 28 de junho de 2018

Sobre vida

Encerrei mais um capítulo do romance, ou o primeiro esboço dele, sem saber que horas eram. Não era noite mais, apesar de ainda ser escuro. As noites estavam cada dia mais longas, invadindo o tempo das manhãs. Regulando o sol, que, quando resolvia aparecer, parecia nunca estar completamente acordado. Não podia censurá-lo; devia ser difícil despertar de uma madrugada como aquela.

Deixei os olhos vagarem por alguns momentos para fora do papel: a mesa de madeira escura, o copo de cerveja pela metade, as prateleiras de bebida. Evitei apenas o olhar do moço de trás do balcão. Ele já havia polido todas as garrafas da estante, limpado o balcão, as mesas, e lavado todos os copos. Não me importei.

Mais um papel em branco me aguardava, impaciente. Faltava algo, algo importante, algo que eu tinha deixado de escrever. O papel o exigia, em seu branco imponente e gélido. Tomei mais um gole da cerveja, que apesar de fria, oferecia mais calor que o papel.

As pessoas eram bonitas, sempre bonitas, nas minhas histórias. Seria isso o irreal? Pessoas comuns não são bonitas; têm narizes grandes, olhos pequenos, celulite, acne, pelos. Mas penso que nós somos mais do que as partes que nos formam. As pessoas são bonitas porque outras acham que sim, porque o conjunto faz sentido; não porque fazem parte de qualquer padrão.

O cenário também não podia ser; era tão real quanto o bar em que eu estava, cujo clima emprestei a algumas cenas. Escolhera também a trilha sonora perfeita. Mas não bastava. Faltava a história que sai do papel e dança e caminha sozinha. A minha história não caminhava sozinha, visto todo meu esforço daquela noite para que engatasse uma caminhada meio manca. Não engatou e eu quis amassar tudo e jogar pela janela. Ou na cara do moço do balcão.

Cansei de evitar seu olhar e encarei-o. Para minha surpresa, não tinha a expressão carrancuda de quem não via a hora de fechar o bar. Em vez disso, ele sorriu para mim. Um sorriso compreensivo. E voltou a seus afazeres, como se ainda não tivesse terminado.

Há quanto tempo não via um sorriso? Enterrada em mim mesma, há quanto tempo não via nem sequer um rosto amigo? Por isso tinha ido ao bar, por isso não queria voltar para casa, sufocada na solidão e a escuridão do meu abajur. Histórias eram sobre vida. Palavras eram seres vivos. O silêncio as espantava e o vazio as matava. Nada poderia vir de nada.

Era o que havia de errado com minha história. Faltava vida. A minha.

"You're walking meadows in my mind,
Making waves across my time

What a strange magic"

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Imagem: Flick - Creative Commons
Música: Strange Magic - ELO

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Resenha: O Nome do Vento

Comecei a ler este livro sem nenhuma expectativa. E se tornou uma boa surpresa.

O Nome do Vento é o primeiro livro da trilogia "Crônicas do Matador do Rei", de Patrick Rothfuss. A história se passa num mundo ficcional conhecido como Quatro Cantos da Civilização. O protagonista é Kvothe, um personagem misterioso e muito inteligente, músico, artista itinerante de uma espécie de grupo de ciganos e aprendiz de mago. E, na ocasião do início do livro, taberneiro.

No início do livro, o narrador é em terceira pessoa e nos conta sobre os atuais tempos difíceis e perigosos, onde demônios e saqueadores estão à solta pelas estradas e poucos mantimentos chegam às cidades. Até que um personagem entra na história e se inicia a narrativa em primeira pessoa, em que Kvothe nos conta sua história.

Minha parte favorita é quando ele chega à Universidade e começa a virar uma lenda no lugar. Ele é jovem demais para entrar, mas aprende tudo muito rápido, motivo pelo qual os mestres de lá permitem que ele ingresse na instituição e tenha oportunidade de virar um Arcanista. Nesse meio tempo, ele faz amigos, inimigos, comete muitas imprudências, salva pessoas e vai se delineando, assim, sua fama de herói.

Com a narrativa em duas pessoas, o autor nos oferece uma diversificação de ponto de vista. No narrador em terceira pessoa, ele nos dá uma visão mais real do que se passa. Quando Kvothe começa a narrar, percebemos uma queda na imparcialidade, conforme ele mesmo avisa que vai narrar as coisas do jeito dele.

"As melhores mentiras a meu respeito são as que eu contei"

No entanto, ele é um artista. A narrativa ganha em poesia e envolvimento, porque as impressões do mundo conforme a maneira que Kvothe o enxerga é encantadora. Uma passagem que eu gosto é quando ele descreve a moça por quem ele é apaixonado: ele a chama de linda, mas outro personagem contradiz, afirmando que ela tem nariz torto e que o rosto é fino. E ele rebate, dizendo:

"Somos mais do que as partes que nos formam"

Dessa forma, o Kvothe experiente que conta a história mostra uma sapiência que eu apreciei bastante. Outra parte interessante é quando o jovem Kvothe reclama de algumas atitudes dessa moça e um sábio dono de taberna declara que ele não pode julgar o que uma mulher faz na sua luta para sobreviver. Tentei explicar essa parte para minhas amigas, mas não sei se consegui fazê-las captar direito, porque não estavam inseridas naquele mundo como eu estava.

Não que eu não tenha torcido o nariz para várias outras passagens; por ser uma fantasia épica, somos obrigados a contar com uma realidade de época bastante desfavorável às mulheres. Mas tentei ler sem preconceitos e com o máximo de discernimento.

Então, eu adorei o primeiro volume e ele entra no Desafio como o meu livro "Fantástico". Pretendo ler outras coisas antes de entrar no segundo. E também no spin-off sobre outra personagem, que eu achei bem interessante. Porque não gosto de ler séries de uma vez.

Inclusive, eu disse acima que comecei a ler o livro sem nenhuma expectativa. Menti. Eu esperava que, por ser uma trilogia iniciada há tanto tempo, já teria um final. E não tem. Faz seis anos que o autor finge escrever o terceiro livro. Estou arrasada por ter me metido nessa de esperar por autor de novo.

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sexta-feira, 15 de junho de 2018

Conto de fada

A bebida tinha um gosto amargo. Não tanto pelo alto teor alcoólico; a profundidade da minha tristeza fazia amargar até o mais doce pudim de leite. Como aquele que minha avó fazia. Doce e macio, muito melhor que aquela bebida dourada com gosto de remédio. Mas pudim não resolvia a importante questão que o uísque conseguia. Esquecer. Ao menos por alguns instantes.

Por isso, ele foi o escolhido da noite. O estômago protestava; mas ainda não muito alto, de modo que eu continuava a beber. A cabeça girava de modo agradável, tornando o pensamento turvo, com sensação de irrealidade. Irreal era bom. Nublava as últimas horas; aquelas que me roubaram anos na minha vida, tornando-os uma mentira. Com apenas mais alguns goles, eu apagava totalmente aquelas horas e conseguia fingir que não havia vivido um conto de fada.

Pedi mais uma dose ao garçom, que me olhou com desconfiança. Esbocei a minha melhor expressão de sóbria, prendendo o riso e o choro, que quase ousavam me entregar. Ele deu de ombros e me serviu mais uma. Afinal, era o trabalho dele e eu era maior de idade.

Conto de fada. Quando eu o vi pela primeira vez, há tantos anos, ele era o próprio príncipe encantado, com cavalo branco, canções de amor e passeios no bosque. Sem dúvida, os últimos anos foram exatamente como um conto de fada.

Duas gotas escorreram dos meus olhos, enquanto sorvia mais um gole. A mente estava confusa, mas a língua lembrou aos olhos que eles estavam secos demais. O nó da garganta também encontrou um pouco de alívio, que a bebida não trouxera. Enxuguei-os com as costas das mãos, chateada pela traição do meu corpo.

As lágrimas vieram primeiro. Logo após foi o riso. E, mesmo com lágrimas ainda derramando verdadeiros córregos pela minha face, comecei a rir. Era tudo tão óbvio que era ridículo.

Estive todo esse tempo vivendo um conto de fada. No sentido de que contos de fada não existem.

"I'm busy mending broken pieces
of the life I had before"

 Imagem: Fickr - Creative Commons
Música: Unintended - Muse

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