terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Sempre em frente

Estava passando por uma rua movimentada, nos confins da minha cidade, quando o vi. Era um senhor idoso; os cabelos bem brancos, raros em algumas partes da cabeça, corpo magro, rosto enrugado. Vestia uma roupa de fazer exercícios e um tênis com meias brancas. Não me chamaria maior atenção, não fosse o modo como ele caminhava. Andava curvado, ofegante, uma perna mancando ligeiramente, as mãos se movendo como se procurassem apoio. O mais incrível é que, mesmo assim, ele seguia em frente.

A calçada não era exatamente uma pista de cooper; cheia de buracos e mato crescendo em alguns locais, postes surgindo quando se menos esperava. Vi-o tropeçar uma vez e apoiar-se no primeiro poste que encontrou. Parecia extremamente cansado, como se a evidente carência de músculos na perna não fosse dar conta dos ossos e estes fossem se partir a qualquer instante. Mas não parava de andar.

Pensei nas vezes em que me senti cansada, depois de um dia de trabalho. Pensei nas tantas vezes em que me cansei da vida. Pensei até nos instantes em que a inspiração para criar me falta. A gente não consegue — nem precisa — estar feliz em todos os momentos. Aquele senhor não parecia feliz. Mas seguia sempre em frente.


"Anyway the wind blows
Doesn't really matter"

Imagem:
"Old man walking in a rye field" de Lauritz Ring

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Natais passados

É triste ouvir tanta gente dizer que não gosta do dia de Natal. Até entendo que a magia que existia quando a gente era criança tenha ido embora. Entendo que não exista mais a espera do bom velhinho da sacola de presentes. Entendo que montar a árvore, colocar a meia na janela não tenha mais tanta graça quanto antes. Entendo. Eu também sinto isso, a velha melancolia dos Natais passados.

Véspera de Natal. Lembro-me de que, nesse dia, a gente já ficava de olho nas sacolas vermelhas, embaixo da árvore da minha avó, procurando uma etiqueta com o nosso nome. Presentes de toda família num pacote só. Eram Natais mágicos, aqueles. O de esperar os guizos tocarem e cair no sono antes disso. De assistir o especial da Xuxa, sonhar com o dia seguinte. E acordar com um presente aos pés da cama.

O Natal acabou só porque nós crescemos? O sentido se perdeu? Fico pensando o quanto o sentido do Natal tem a ver com acreditar em Papai Noel. Não devia ser assim. Hoje é, sim, um dia especial, porque é o aniversário daquele que morreu para nos salvar. Um Feliz Natal para todos aqueles que acreditam.


"When it seems the magic slipped away
We find it all again on Christmas Day
Believe."

Imagem por: Fotolia

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Problemas técnicos

Amigos, alguns devem estar achando estranho o fato de todos os comentários terem sumido, mas é que houve um problema com o sistema de comentários que eu usava e tive que voltar às pressas para o sistema original do blogger. Ainda consegui salvar todos os comentários e estou, aos poucos, arrumando tudo em seus devidos lugares, mas acabei perdendo os links com os endereços de cada um.

Alguns, eu já acompanhava e sei de cor; outros eram novos e eu, infelizmente, não assinei o feed, nem pude retribuir a visita a tempo. Peço a essas pessoas que, se porventura voltarem aqui, me perdoem. E, claro, deixem um recado com os endereços.

Beijos a todos!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Pela janela


Passarinhos passeiam toda manhã, pela minha janela. Voejando, cantando, beijando as fartas flores cor-de-rosa da árvore ali em frente. Consigo sorrir àquela visão, mesmo sendo bem cedo, mesmo estando bem quente, com bastante trabalho a me esperar. Mas como me privar de sorrir, se eles parecem pedir para que eu sorria?
Vejo-os ali, empoleirados nas fiações do poste, como numa fila, como esperando que cada um tivesse sua vez junto às flores. E voam, um por um, de dois em dois, bando em bando, e todo o resto aguardando nos fios de energia. Numa barulheira animada, de quem espera horas e reclama: "vai logo, ô, tartaruga!", mas sem se incomodar realmente com a demora. Afinal, que pressa eles poderiam ter, se não tem trânsito para pegar, contas para pagar? E se o trabalho deles é apenas beijar aquelas flores? Eu penso… Talvez só estejam reclamando do intenso calor.
O sol que tem feito me levou a desejar chuva. A chuva veio, de fato, e os passarinhos foram-se embora. Não voltaram, nem quando a chuva se foi; a elegante árvore das flores cor-de-rosa foi derrubada, com o temporal. E, agora, toda manhã eu suspiro: onde estarão meus passarinhos?

"Quero ver você voando
Quero ouvir você cantando
Quero paz no coração"*
 *Música: Canta coração

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Notas de Adeus

Foi-se a música, como se foi o amor. Como manter o amor, se além de não correspondido, era maltratado e desprezado? E como manter a música sem a poesia do estar amando? Como seguir cantando, preso numa gaiola de amargura? Como continuar poetizando? Como permanecer vivendo?
Sobrevivendo, diria. Chutando os dias, queimando as horas, cansando os segundos. E pensando em outros segundos, melodicamente dedilhados, realmente vividos; aqueles belos instantes que ficaram no passado. Era agora, por inteiro, passado. Sabia que não viveria mais depois daquelas tristes páginas, que encontrara no meio das folhas de partitura de sua composição preferida. Como o contrário de uma partitura; se estas eram poesia, as outras eram cobertas de frases de adeus.
Adeus. E as páginas voaram, todas elas. Melhor assim. Jamais esqueceria aquela canção, a que fora embora com a malfadada carta. Talvez ainda pudesse tocá-la sem o acorde angustiado da lembrança. Talvez, quando tudo não passasse de um sonho, esqueceria as cruéis páginas que, antes de voarem, derramaram mais lágrimas que notas musicais.

"Amor que nunca cicatriza
Ao menos ameniza a dor."*

Música: Cicatrizes 

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Respirando...

Inspiro, expiro, aspiro. Suspiro.

Neste instante me sinto realmente o ser humano ínfimo que sou, incapaz de mover o mundo que jurei para conseguir o que desejo. Nessa hora consigo ser nada aos meus próprios olhos. E dificilmente mudarei esse conceito de mim para mim, se não tomar uma decisão agora. Se não lutar pelo que quero.

Afinal, que espécie de covarde me tornei? Sei que há instantes de incerteza na vida de todo mundo, mas este aqui já está durando tempo demais. Incerteza e inércia. Infelizmente, não combinam comigo.

Inspiro, expiro. Aspiro... Agora sem suspirar.


Imagem por stock.xchng

sábado, 7 de novembro de 2009

Um sorriso inesperado

Admito, não tenho exatamente um humor de princesa pela manhã. É um período meio negro do dia, em que sou naturalmente séria e quieta, não muito propensa a risadas de qualquer tipo. Meu irmão diz que é porque meu segundo neurônio ainda não acordou e, sem o outro, um não dá conta de entender as piadas e respirar ao mesmo tempo. Eu digo que manhãs me tiram do sério, principalmente quando faz aquele sol e o disco amarelo em questão já começa o dia me fritando para o café da manhã, com a luz da fresta da janela bem em cima da minha cama. Com ou sem sol, sempre preferi dormir, nesse horário.

Depois vem o trânsito, os motoristas dirigindo cada vez pior; a sauna debaixo do jaleco, gorro, máscara e luvas, mesmo quando o ar condicionado está no máximo; os pacientes reclamando de qualquer besteira... Assim, são poucas as coisas que mudam meu humor sombrio, porém tolerante, da manhã. Uma delas é o sabiá que passa pela janela do meu consultório, enquanto estou atendendo. Mas o bom humor por causa do passarinho não dura tanto quanto esse que ocorreu hoje, causado por um sorriso.

Estava saindo da sala, quando me deparei com uma menina. Não daquelas crianças bagunceiras, que viram o recinto pelo avesso quando chegam; tinha por volta dos três anos e estava sentada quieta no colo do pai. Particularmente, não tenho muito jeito com crianças, ainda mais meninas, apesar de elas curiosamente gostarem de mim, de modo geral. De qualquer maneira, não costumo puxar conversa com elas, a não ser que estejam na minha cadeira de atendimento. Então, eu não disse nada, apenas ia passando.

Foi quando ela sorriu. E eu pensei que nunca tinha visto um sorriso tão verdadeiro quanto aquele, naquele momento. Não sei o que aconteceu, crianças sempre sorriem para mim e eu nunca cheguei a me surpreender com isso. Aliás, minha reação costumeira é de corresponder o sorriso, fazer uma gracinha para elas e depois voltar aos meus afazeres. Isso talvez seja pelo fato de elas nunca sorrirem apenas, mas começarem a falar, perguntar coisas, chamarem para brincar. É o normal; afinal, crianças são hiperativas por natureza.

Mas com ela foi diferente; ela não disse nada, não ficou tagarelando. Apenas sorriu. E coloriu a minha cinzenta manhã de sol.


You’ll find that life is still worthwhile
If you just smile

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Fantasma

Vi-o em fotos algumas vezes, ao longo desses anos, e nunca entendi o fascínio que senti, quando adolescente. Até vê-lo hoje e sentir o mesmo magnetismo de outrora. Maldito! Como pode fazer com que me sinta aquela mesma adolescente idiota? Odeio essa sensação, por isso passei direto, fingi que não o vi e ele pareceu não me ver também. Melhor assim.

Não chegava a ser lindo de morrer; era apenas carismático. O que me deixava maluca era aquele ar despreocupado e desinteressado a ponto de ser irritante. Era exatamente assim: sempre passava dois metros adiante e não me via. A mim, parecia não querer me ver. Eu me sentia um grande nada de coisa nenhuma, ou ele me transformava em algo parecido, com a sua presença. Como agora, com a pequena diferença de que eu já aprendi a disfarçar melhor minha enorme frustração.

Sentei-me com meu almoço a uma mesa, no cantinho do restaurante, e me pus a comer, forçando-me a não mais dar importância ao sujeito. E assim seria, caso o destino tivesse pena de mim.

— Ei, que surpresa encontrá-la!

Não, isso não está acontecendo. Por quê? Em todo o tempo em que estudamos juntos, ele raramente se aproximava para falar comigo. Era sempre eu, eu e eu; não sei como meu ego nunca ficou em coma, depois de tão repetida e cruelmente pisoteado. Bem, talvez ele tenha ficado, mas se curou para sempre. Eu aprendera a lição. Virei o rosto para fitá-lo, sem pressa, tentando demonstrar apenas vaga surpresa:

— Hum. Oi. Tudo bem com você?

— Tudo, sim. Nossa, há quanto tempo!

— É, verdade.

Dez anos, para ser exata. Comemoro o fim daquela época como um aniversário, de quando deixei de ser idiota. Ele sentou-se na cadeira à minha frente.

— E você está ainda mais linda que nunca. O tempo lhe fez bem.

Sem dúvida, ainda é o mesmo. Indiferente ao resto do mundo, enquanto anda sozinho, mas olhando diretamente nos olhos quando fala com alguém. É intrigante como consegue fazer uma pessoa se sentir de especial a desprezada em poucos segundos.

— Obrigada.

— Que tem feito?

— Estudando, principalmente.

— É, você sempre foi responsável demais.

Ergui uma sobrancelha, sem vontade de responder àquela pequena crítica. Acho que eu seria desnecessariamente ácida. E foi bom, porque ele interpretou meu silêncio como uma censura. E era mesmo.

— Ei, não que isso seja uma coisa ruim.

— Dificilmente seria.

— Você continua a mesma de sempre, então?

— Com um pouco mais de ceticismo, sarcasmo, maturidade; essas coisas que acontecem com as pessoas em geral.

Ele riu. Fiquei pensando onde ele viu graça e logo tive minha curiosidade satisfeita:

— É, você não costumava ser tão irônica.

Eu era; apenas não sabia como funcionava. Na verdade... Bem, a quem estou tentando enganar? Eu não tinha nenhuma intenção de ser irônica com ele, naquela época, mesmo que soubesse como. Ironia afasta as pessoas, certo? E eu não queria afastá-lo. Pelo contrário.

— Lembro de que, uma vez, alguém me disse que você gostava de mim — ele comentou, com um risinho baixo.

Um risinho. Certo, será que eu consigo matar uma pessoa com uma faquinha de plástico? Porque sinto um forte impulso homicida prestes a se espalhar pelas minhas artérias.

— Mesmo?

Afinal de contas, que diabos ele quer com essa conversa? Me humilhar? Eu já não o havia feito o bastante, no passado?

— Sim, eu até fiquei pensando... Mas, sabe como é, não estava querendo nada sério. Coisa de adolescente.

— Ainda bem que essa fase não dura para sempre.

O olhar que ele me lançou foi curioso.

— Estamos falando de mim ou de você?

— Não sei, você escolhe.

— Escolheria falar de você, mas você nunca foi muito de se expor. Sempre foi um mistério.

RÁ! Essa foi boa! Eu, mistério? Eu era o mais imbecil dos seres, impressionada com cada sorriso, encantada com cada palavra que ele me dirigia. Misteriosa? Pois sim. Aposto que dava para ler cada mudança de humor no meu rosto. Aliás, acho que só o próprio não sabia que eu era apaixonada por ele. Até alguém contar, claro.

— Viu? Gostaria de saber o que está pensando.

Irritada e louca para encerrar a conversa, olhei o relógio de pulso:

— É que já deu a minha hora. Preciso ir.

A expressão dele foi de disfarçado desapontamento.

— Vai sumir de novo?

Se eu puder.

— A gente se vê.

Até fiquei me sentindo culpada, pois percebi que em nenhum instante eu sorri. O fato é que não aguentaria passar por tudo aquilo de novo. Fantasmas do passado só servem para isso mesmo; para nos assombrar. Espero que esse não volte mais.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O pequeno

Quem escolheu seu nome foi meu irmão mais velho. Eu escolheria, se fosse menina. Sempre quis uma menina para brincar, mas veio ele. No início, eu não gostei, mas acabei acostumando. Só bem depois, percebi que gostava dele assim mesmo. Ou até porque não fosse menina e, por isso, a gente nunca brigasse muito. Nunca me dei muito bem com meninas mimadas; ninguém gosta de lidar com os próprios defeitos.

Era tão pequeno, mesmo quando eu também era bem pequena. Eu vivia com medo de que alguém não o segurasse direito e ele se quebrasse, então ficava sempre por perto. Nunca quebrou. Mas eu não tirava os olhos vigilantes dele, pensando que podia chorar a qualquer momento. Chorava pouco. Sempre foi mais forte que eu.

Enquanto crescia, tagarelava demais, mas trocava letras. Se dependesse da minha mãe, ele nunca falaria certo; ela achava lindo aquele vocabulário estilo Cebolinha. Eu fui sua professora, quando precisou de ajuda em português. Também fui eu quem lhe dei o primeiro livro. Se ele gosta de ler, um pouco (bem pouco) que seja, é por minha causa. E eu devo ter alguma culpa por ele ter passado tão bem no primeiro vestibular.

Hoje, ele faz 20 anos de idade. Está maior que eu, mas ainda insisto em chamá-lo de "meu irmão pequeno". Algumas coisas nunca mudam.


"Faça um sinal, cante uma canção
Do alto coração
Mais alto coração..."

Imagem:
stock.xchng

sábado, 17 de outubro de 2009

Ao telefone

— Alô?
— Alô.
— Quem fala?
— Eu.
— Com quem quer falar, por gentileza?
— Com você.
— Comigo? Quem fala?
— Eu falo. Você fala também.
— Ora, eu tenho mais o que fazer! Com licença...
— Não, não desligue, por favor!
— ...
— Está aí ainda?
— Estou. O que você quer?
— Apenas conversar. Você se importa?
— Claro que me importo. Você não tem amigos?
— Até tenho. Mas eles não me entenderiam. Só tenho uma amiga que entenderia, mas ela não fala mais comigo. E eu preciso mesmo conversar com alguém.
— Por que eu?
— Sei lá, destino, acho. Você está ocupada?
— Estava estudando. Tenho prova amanhã.
— Eu tenho também. Mas não estou me importando.
— Acontece que eu estou me importando. Você pode até ser um irresponsável, mas eu não sou.
— Não pode parar apenas por uns minutos?
— Sobre o que você quer conversar?
— Problemas.
— Isso é óbvio. Já ouviu falar em alguém desesperado para conversar banalidades com alguém?
— Ora, não seja rabugenta.
— Então pare de enrolar e diga logo o que você quer!
— Se for escutar nessa má vontade, eu não quero mais.
— Ótimo! Adeus!
— Não! Não desligue! Está bem, eu falo. Mas prometa que não vai ser muito dura comigo.
— Não prometo nada.
— Puxa, você não cede um milímetro, hein?
— Ainda estou aqui, não estou? Então reclame menos e comece de uma vez essa história.
— Está bem! É o seguinte...
— ... Então?
— Calma. Estou pensando como começar.
— Ai, céus!
— Você está sentada?
— Não.
— Então sente, que a história é longa.
— Você quer testar mesmo minha paciência, não?
— Sentou? Então. Eu conheci uma garota...
— Logo vi.
— Hein? Como assim?
— Problemas com mulheres. Típico. Vocês homens são todos iguais mesmo.
— Quer que eu continue ou não?
— Eu não interrompi.
— Ah, não?
— Você fez uma pausa. Julguei que quisesse um comentário meu.
— Quando eu quiser um comentário, eu peço.
— Não precisa ficar nervosinho!
— Você que veio com o papo de que homens são todos iguais.
— É a verdade!
— Ah, não vou discutir isso com você agora.
— Então pare de besteira e continue logo essa história.
— Continuar… Você nem me deixou começar ainda! Nem sei mais onde estava...
— Eu ajudo. Você havia dito: “eu conheci uma garota”.
— Eu sei o que disse.
— Então por que perguntou?
— Eu perguntei?
— Claro que perguntou!
— Ah, não importa. Eu conheci uma garota…
— Você já disse isso.
— Dá para ficar calada?
— Não me mande ficar calada! Eu estou aqui fazendo um favor.
— Se você ficar quieta, mais cedo terminamos e mais cedo você volta aos seus livros.
— Ok. Vá em frente.
— Eu conheci uma gar...
— Tá, e daí?
— Faz algum tempo.
— Alguns meses?
— Alguns anos.
— Nossa! Esse tempo todo de amor platônico?
— Quem falou em amor?
— Sei lá, eu pensei...
— Não pense. Mulheres não foram feitas para isso.
— Olhe aqui...
— É brincadeira! É brincadeira!
— Se essa garota deixou você, posso entender por quê. Você é um machista!
— Já disse que estava brincando.
— Eu não tenho tempo nem paciência para brincadeiras.
— Tá, mal humorada! Essa garota tornou-se uma grande amiga. Mais que isso; ela se tornou minha melhor amiga.
— Ah! É aquela que não fala mais com você? Posso entender por quê, também.
— Vou ignorar seu comentário. É ela mesma. Minha melhor amiga.
— Quer dizer que aquela que ouviria seu problema, caso você não estivesse brigado com ela, é exatamente o problema?
— É, mais ou menos isso.
— Está vendo que eu sei pensar?
— Nossa, estou admirado!
— Sem ironias, por favor. Por que ela não fala mais com você?
— É um pouco complicado...
— Com certeza a culpa é sua.
— Vocês mulheres sempre se defendem.
— Afinal, o que houve?
— Bem... Eu tinha uma namorada...
— Tinha?
— Sim, tinha. Acabou.
— Ah, certo.
— E essa amiga não gostava dela.
— Assim, sem motivo?
— Eu achava que sim.
— E não era?
— Ela me traía.
— E sua amiga sabia?
— Ela que me disse.
— E você não acreditou.
— Eu gostava muito dela! Tive que vê-la com outro para cair a ficha. Foi terrível, se quer saber.
— Você é um idiota.
— Também não precisa humilhar!
— E você quer que eu diga que você está certo? Pensei que quisesse alguém que lhe dissesse a verdade. Além do mais, eu não sei agir de outra forma. Já deve ter muita gente passando a mão na sua cabeça por ter sido tão cruelmente traído.
— É verdade. Não sei onde estava com a cabeça, quando liguei para você.
— E, no final, a culpa foi sua mesmo, como eu pensava.
— Eu realmente não deveria ter ligado para você.
— Concordo plenamente. Mas já que ligou, o que quer de mim?
— Compreensão. Ajude-me.
— Em relação a quê?
— A tudo. A qualquer coisa.
— Em outras palavras, você quer uma amiga.
— Isso.
— E você quer uma amiga mal humorada?
— Sim.
— E sincera ao extremo, para apontar cada um dos seus erros?
— Não quero nada menos que isso.
— E vai aceitá-la assim, do jeito que ela é?
— De qualquer jeito.
— E não vai dar mancada com ela?
— Farei o impossível.
— Então admite, pelo menos uma vez na vida, que estava errado?
— Você não vai sossegar mesmo, não é?
— Admite?
— Admito.
— Então você tem uma amiga, Edu.
— Que alívio, Cris! Não sabe como é bom tê-la de volta.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sem resposta


Todos os dias, no trabalho, gastava alguns bons minutos olhando para ele. Alguns pela manhã, alguns na hora do almoço, à tarde... Sempre que passava por ele, sentia que meus olhos eram incapazes de se desviar de tamanha beleza e carisma. Senti-me encantada desde a primeira vez em que o vi. Era... puramente lindo. Perfeito. E ele me olhava de volta, mas nunca dizia nada. Nem eu; acho que me sentiria meio boba.

Assim, sempre que nossos olhares se encontravam, temendo me sentir ainda mais ridícula, apenas murmurava um “bom dia” constrangido, quase para mim mesma. Ele não respondia, claro, pois era impossível poder ouvir. Mas eu ficava satisfeita, mesmo corando violentamente. Pelo menos ninguém testemunharia o quanto eu era idiota. Afinal, passar o dia sonhando com o impossível era mesmo idiota.

Até que, um dia, depois de uns bons meses de troca de olhares, tomei coragem e fui em direção a ele. Olhei ao redor e constatei que ninguém me observava. O mais rápido que pude, arranquei o cartaz do quadro de avisos, enrolei e enfiei embaixo do braço, voltando quase correndo para a minha mesa. Quando chegasse em casa, penduraria na porta do meu guarda-roupa e curtiria sozinha a minha loucura. Meu ridículo amor platônico.


"I know that you saw me
'cos I looked up to see your face"

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O Guia do Mochileiro das Galáxias

Dia desses, mandei um livro de aniversário, comprado num site da internet, para um amigo meu de outra cidade. Bruno, meu amigo, veio me agradecer o presente. Eu fiquei aliviada por saber que o livro tinha chegado ao seu destino, pois eu achava que estava demorando demais.

— Oi, Ma! Obrigada pelo presente!

— Puxa! Até que enfim, pensei que não chegaria mais.

— E não chegou, na verdade.

— Hein?

— Aconteceu uma história muito estranha até o livro chegar aqui.

— Não chegou aí? Como assim, que absurdo! Vou reclamar lá.

— Espera, escuta a história:


"Aparece hoje aqui na porta de casa um cara numa bicicleta e só estava o Fred* e o André* aqui. O Fred, todo desconfiado, vai atender, e o cara pergunta:

— Aqui é a rua X?

— É sim, por quê?

— Tem um Bruno aí?

— Tem, mas ele não está.

— É que tem um pacote aqui pra ele.

Eram 21h00. O Fred vai lá na porta, nem leva a chave para não abrir o portão, e pergunta se tem o nome completo, para ter certeza de que é o Bruno daqui mesmo.

Daí o cara:

— Ah sim, peraí. Segura aqui. — E passa um livro pro Fred segurar, enquanto ele lê o nome no pacote. O Fred nem olha qual era o livro, preocupado com o que o cara vai fazer.

— “Bruno de Tal”.

— Ah, é esse mesmo.

O cara, então, passa o pacote, que já estava aberto e explica:

— Então, foram entregar esse pacote na minha casa.

— Onde você mora?

— Na rua Y — que é outra rua daqui, cujo nome não tem nada a ver. — E na minha casa também tem um Bruno. Ele abriu o pacote e só depois percebeu que não era pra ele.

E o Fred abismado. O cara continuou:

— Então, quando o Bruno chegar, você dá três avisos pra ele:


1. Quem entregou o pacote era um vogon muito burro... Se bem que eles já são burros mesmo... Mas esse era muuuuito burro.

2. Quando eu vi o pacote, eu pensei que era um aquário, mas era um livro.
3. Quando ele for viajar, não se esqueça de levar a toalha.


— Tá. Qual é o seu nome?

— Eu sou o Carlos*. Você entendeu os recados?

— Sim... Vogon burro, pensou que era um aquário e não esquecer a toalha.

Depois que o Fred pegou o livro de volta é que ele viu o nome: “O Guia do Mochileiro das Galáxias”. O cara posicionou a bicicleta e acenou:

— Até mais! E obrigado pelos peixes."


Eu pensei bem e decidi que não vale a pena ligar para reclamar. Como disse Bruno, valeu a diversão.


* Os nomes foram trocados por motivos que não vem ao caso.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O acordar


Que lugar é este? Onde está a minha cama, meu quarto, minha casa? Meu despertador, onde está meu despertador, que não me acordou? O sol já está quase a pino e nem sinal do barulhinho irritante. Céus, perdi a hora! Será que me esqueci de programá-lo para tocar? É bem possível, ando tão distraída ultimamente... Tenho que levantar para fazer o café do meu marido. Onde será que ele está? E que raios de lugar é este?

É bonito, sem dúvida, com todo este verde em volta e este céu azul. Parece cenário de sonho. Um pouco claro demais para o meu gosto; dá a impressão de que se está mais perto do sol. Mesmo assim, não é quente. Nem frio. É até bem agradável, bem mais do que aquele meu apartamento abafado e bolorento. Eu ia começar a pintar as paredes, qualquer dia desses; mas as costas doem tanto que ficava adiando, adiando... Curioso, não sinto mais dores nas costas. Poderia começar uma reforma inteira agora mesmo, se conseguisse descobrir em que direção fica a minha casa. Mas esse gramado todo, não sei; acho que deve ficar a uns bons quilômetros da cidade em que eu moro.

E essas pessoas todas me olhando? Deve ser por causa da minha gravidez avançada... Gravidez... Meu Deus, onde está a minha barriga? Meu bebê! Até ontem estava aqui! O que aconteceu? Eu o dei à luz e não me lembro? Parti e o abandonei lá, sem nem conhecê-lo? Como pude fazer isso? Não posso ficar aqui, ele precisa de mim! Quem vai cuidar dele, dar-lhe comida, trocar a fralda? Meu marido não vai conseguir dar conta de tudo sozinho. Não, não posso ficar aqui! Não, por favor! Alguém me leve de volta, eu preciso voltar! Preciso voltar!

Não posso chorar; a vista fica turva e eu preciso encontrar o caminho de volta. Cadê as estradas deste lugar, os ônibus, os carros? Há alguém a quem pedir carona? Ei, vocês! Por que estão todos sorrindo para mim? Não posso ficar aqui, não pertenço a este lugar. Tenho pessoas de quem cuidar, lá onde morava. Coisas... Várias coisas. Coisas importantes. Cuidar do meu bebê recém-nascido. Voltar para casa. Quero voltar. Para a minha casa...

... Estranho; olhando agora, sinto que conheço este lugar. Parece que já estive aqui, alguma vez, há muito tempo. Que sensação estranha. Parece... paz. Nunca senti isso antes. Talvez bem jovem, quando ainda não tinha tantos problemas... Não há mais problemas. Sem mais dores ou despertadores. Eu estou em paz. Egoísmo meu, estar em paz enquanto tantas pessoas sofrem com a minha partida. Eu sei, eles vão conseguir sobreviver, de alguma maneira. Eu sei. Eu... Só espero que fiquem bem.

Do meio da multidão que sorria para mim, um homem de olhar belo e terno aproximou-se e me abraçou. Com lágrimas nos olhos, reconheci aquela voz profunda, quando Ele falou:

— Seja bem-vinda, minha filha.


Imagem: stock.xchng


Texto para a Blogagem Coletiva de setembro proposta pelo blog Vou de Coletivo!, com o tema "Dormir aqui e amanhecer em outro lugar".

sábado, 5 de setembro de 2009

No meio do caminho tinha um galo

Na antiga casa em que eu morava, quando criança, havia várias árvores frutíferas, espalhadas pelo terreno enorme. Uma delas, a de manga rosa, que eu plantei quando bem pequena, era uma das minhas preferidas. As mangas dela eram as melhores. Pelo terreno, ainda havia um campo de vôlei, um parquinho, um jardim, uma casa de bonecas e… um galinheiro. Por alguma coincidência do destino (ou espiritice-de-porco de quem planejou), o pé de manga rosa ficava dentro desse último: do galinheiro.

A história começou quando, da janela do meu quarto, eu a avistei: enorme, suculenta, madurinha. A manga. Ela estava num galho meio alto, mas não seria difícil subir e pegar. De fato, subir não foi difícil; já descer… Saí pro quintal com a idéia fixa de colhê-la custasse o que custasse, já lembrando que a mangueira ficava no meio do bendito galinheiro. Bom, eu não tinha medo de galinhas, afinal; praticamente havia crescido no meio delas, por causa daquele galinheiro, que meus pais tinham inventado de manter ali.

Entrei no território das galinhas, então. Elas me olharam, cacarejaram e se afastaram. Galinha é um bicho burro e eu não vou fingir que acho que me reconheceram. Ainda bem, porque certa vez, no auge da minha ingenuidade infantil, eu despejei o resto do meu almoço pra elas comerem e elas, obviamente, comeram. Era frango desfiado.

Continuando, fui em direção ao primeiro galho da árvore e dei o impulso inicial para subir. Era aquele tipo de galho, que toda árvore tem, que você obrigatoriamente tem que pisar nele para subir ou descer. Então, eu fui subindo, subindo, até alcançar a minha desejada manga. Peguei e fui começando a descer, galho por galho, até chegar naquele galho inicial. Foi quando me deparei com um galo, empoleirado nele, me olhando com cara de poucos amigos.

You wanna fight?

Galinhas são geralmente inofensivas, a não ser que você queira pegar um ovo ou os filhotes delas. Mas galos são bem pouco pacatos. Este, especificamente, tinha a fama de ter ferido todos os machos que já pintaram por aquele galinheiro e de ter dado uma surra nos gatos que porventura entravam para comer os pintinhos. O que seria de mim, pobre criança sem esporões, encarando uma criatura como aquela? Só me restava esperar que ele saísse do galho, para que eu pudesse descer e comer minha manga.

Foram se passando os segundo, minutos… E minutos para uma criança é bastante tempo, ainda mais em cima de uma árvore. Meus pés começaram a adormecer, de me equilibrar naqueles galhos cheios de titica, e o galo não cedia terreno. Olhava-me com a mesma cara, como se me desafiasse pra briga. Comecei a me desesperar; percebi que ele não ia sair dali. Vai ver, ele tomara conhecimento do meu crime que provocara o canibalismo entre os seus e quisesse me punir por aquilo. Comecei a tremer de medo e, quanto mais me agitava, mais ele parecia ficar satisfeito.

Até que não aguentei mais: analisei a altura a que estava e calculei o impacto da queda. Era alto, mas era melhor que encarar o rei-galo. Fechei os olhos, pulei e caí sentada no chão batido, melecando minha roupa de titica de galinha. Mas não me importei, saí correndo o mais rápido que pude das terras do reino.

Quando fechei a porteira, arrisquei uma última olhada pro sujeito. Ele ainda olhava para mim, agora com o ar de “escapou, né, covarde?”. Covarde, sim, mas inteira. E, como que para comprovar minha teoria de que ele só estava montando guarda por minha causa, ele farfalhou as asas e desceu. E saiu andando tranquilamente em direção aos fundos do galinheiro.

E eu? Eu fui curtir minha preciosa manga. Estava uma delícia.


Imagem: stock.xchng

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Em frente

Todos os dias, a caminho de casa, passava pela frente da casa dele. Era uma bonita casa e ela a conhecia bem, por fora e por dentro, tantas foram as vezes em que estivera lá. Lançava um olhar por puro hábito e, quando percebia que estava novamente olhando naquela direção, desviava o olhar, praguejando. Quase sempre ia para casa sozinha, então passava o resto do caminho inteiro amaldiçoando-se.

É um costume bem comum, o de olhar na direção de lugares conhecidos. Você deve fazer isso e eu confesso que também faço. É como um sinal de reconhecimento. Mas, para esse lugar específico, ela não gostava de ficar olhando. Para ela, era como um sinal de fraqueza, como se desejasse vê-lo. O fato é que realmente desejava vê-lo, mas não podia admitir, nem para si mesma. Tudo estava acabado e já há tanto tempo. Não tinha sentido ficar desejando ver uma pessoa que já não mais fazia parte da sua vida. Nem deveria.

Afinal, o que faria se o encontrasse? Enfrentaria e diria tudo o que estava engasgado? Viraria o rosto, ignorando? Não via vantagem em nenhuma das opções. Estava acabado, afinal. Por que ficava se martirizando, remoendo lembranças passadas, alimentando esperanças vãs? Gostaria de não precisar passar por aquela rua, mas então teria que pegar um caminho mais longo e esquisito. E por uma bobagem.

Como de hábito, resmungou baixinho e começou a interminável sessão de maldições a si própria, quando se lembrou de que, desta vez, não estava indo para casa sozinha. Um amigo do trabalho a acompanhava.

— Hein? Falou alguma coisa, Elisa? — seu acompanhante perguntou.

— Não, não. — Ela sentiu-se um pouco constrangida. — Desculpe, estava só pensando alto.

— Ah.

De repente, o amigo apontou algo do outro lado da rua, o oposto de onde estavam os pensamentos dela, e disse, sorrindo largamente:

— Olha lá, Elisa. Não é lindo?

Era um muro. Quando ela começava a se perguntar o que teria de tão interessante num simples muro, ele puxou-a pela mão para atravessar a rua. O muro estava cheio de desenhos em grafite e inscrições. Encantada pelas cores, ela começou a se perguntar como nunca vira aquele muro antes. A resposta formou-se claramente diante dos seus olhos, na forma de uma citação em letras desenhadas, escrita no muro: “Enfrente sem olhar para trás.”

Deste então, todos os dias, a caminho de casa, Elisa admirava um muro de inspirações. E não mais olhava para trás.


Foto por Kaka

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

BlogDay 2009

Blog Day 2009

Participei, no ano passado, do BlogDay 2008 e achei a coisa toda muito legal, apesar de ainda estar meio perdida nessa coisa toda de blog, na ocasião. O “Dia do Blog”, ao pé da letra; logo, não é uma comemoração qualquer. É a celebração de tudo o que ter um blog significa. É o dia em que os blogueiros recomendam novos blogs aos seus visitantes.

A proposta é ter um dia dedicado a conhecer outros blogs, de outros países ou de outras áreas de interesse, para que possamos expandir nossa área de leitura e conhecimento. Portanto, o ideal é que os blogs recomendados sejam blogs de propostas, culturas, assuntos diferentes do seu próprio. Então, eu não vou listar aqui exatamente o meu Top 5, mas aqueles blogs que eu visito sempre e, na minha opinião, são excelentes e poderão acrescentar muita coisa a quem, eventualmente, vier navegar por estas humildes águas.


  1. Insight: Um blog que fala de arte, acima de tudo. Arte digital, design de sites, blogs. Um blog sobre criatividade, inovação e inspiração, com excelentes templates exclusivos e tutoriais próprios. Ou seja, a arte já começa por parte dos próprios criadores. Apresenta também ferramentas úteis para blogs, dicas de efeito em imagens e portfólios de outros artistas para que leigos, como eu, conheçam.
  2. Conversa de Português: Quem me conhece, sabe que eu sou meio aficionada por gramática. Neste blog, você tira dúvidas, fica por dentro das novidades na língua portuguesa — é sempre bom saber um pouco mais sobre a reforma ortográfica (com a qual ainda sou meio indignada) — e sobre autores que fizeram nossa história.
  3. Um Sábado Qualquer: Excelente blog de tirinhas de humor leve sobre a Criação. Na primeira vez que dei uma passadinha por lá, só consegui sair depois que li tudo do começo ao fim. Não tem nada sobre convicções ou crenças; como o próprio autor diz: “Aposto que até Deus, lendo-as, estará dando boas gargalhadas.” Eu sou da opinião de que Deus tem senso de humor, ou já teria acabado com esse mundo há muito tempo.
  4. Blosque: Impossível não o citar na minha lista. Com posts como “Os 7 pecados capitais que os blogueiros cometem” e “Como usar imagens no seu blog sem ferir direitos autorais”, o blosque é praticamente um manual de instruções de como se utilizar um blog. Todo blogueiro deveria dar uma lida no que tem por lá para não sair cometendo as usuais “gafes bloguísticas”. Mesmo depois de um ano (não que seja muito tempo), eu ainda tenho muito que aprender. Definitivamente, não dá pra largar o blosque.
  5. Meus Rabiscos: Um blog de ilustrações incríveis, feitas principalmente para livros infantis. O traço da Luciana é leve e inocente, faz a gente querer voltar a ser criança e sonhar. Dá prazer admirar o trabalho dela e eu acho uma pena que ela nunca mais tenha atualizado. Uma boa dica para a Andréia, que tem um talento especial com escrita e com crianças: se um dia resolver escrever um livro infantil, chame a Lu para fazer os desenhos. Gente, seria um sucesso!

Espero que todos se divirtam navegando pelos blogs indicados. E um ótimo BlogDay a todos! Vamos comemorar!


sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Sexta-feira

“Caramba, como fazer tudo isso num só dia?”, era meu pensamento naquela manhã de sexta-feira. Mas, como não podia me atrasar, tratei de começar logo. Tomei banho, fiz o café voando e saí pro trabalho, só pensando em pegar a fila do banco na hora do almoço. E ainda almoçar depois. Ou antes.

Foi depois, em dois minutos, num almoço engolido. Voltei pro trabalho ainda mastigando. Pensei no chá de panela que teria que ir, mais tarde. Não tinha como dar um jeito de sair mais cedo do trabalho, então pegaria o trânsito das 18h e chegaria um pouco atrasada mesmo.

OK, bastante atrasada. Duas horas depois, estava eu com o presente nas mãos, me preparando psicologicamente para as brincadeiras sem graça. Por sorte, ou mais provável, pelo meu atraso mesmo, elas já tinham acabado. Ficaram só aqueles grupinhos de fim de festa rindo e fofocando. A parte boa. Falei com as pessoas, fiz um lanche e tratei de sair logo pra um jantar de aniversário, num restaurante. Talvez ainda não fosse tão tarde.

Era bem tarde. As pessoas brincaram, perguntando se eu ia jantar ou tomar café da manhã. Ainda comi alguma coisa, conversei com as poucas pessoas que ainda estavam por lá, antes de ir todo mundo embora. Inclusive eu, que ia, abençoadamente, para casa.

Finalmente, em casa. Tomei um banho, coloquei uma roupa confortável e sentei-me na minha cadeira. Liguei o computador, olhei o e-mail, vi os comentários no blog, os últimos tweets. Tamborilei com os dedos na mesa e suspirei:

“Saco. Plena sexta-feira e nada para fazer.”


Imagem: stock.xchng

domingo, 23 de agosto de 2009

Prólogo de uma carta


Sempre me foi mais fácil escrever que falar. Escrevo sem olhar nos teus olhos, aqueles tiranos que me tiram a concentração e me bambeiam os joelhos. Escrevo sem interrupções do som da tua voz, ou da simples visão do movimento dos teus lábios. Os ditadores do meu estado de espírito. Escrevo sem oscilações de humor; apenas eu e o papel. É fácil lidar com o papel.

Falar necessita de uma técnica a mais, que não domino. Não controlo a respiração ofegante, o suor nas palmas das mãos, o tremor na voz. E, além de tudo, o medo de não conseguir dizer tudo. Ou de falar demais. E, quando o nervosismo ataca, acabo falando demais.

Tanto a dizer e nenhuma palavra sai de minha boca. Nenhuma palavra parece certa quando perto de ti. O jeito é escrever uma carta e pôr todas elas, certas ou erradas, em frases que te possam encantar. Como inspiração, tenho a lembrança do teu rosto. Perdoe-me se, talvez, ela não te fizer justiça.


Texto para a Blogagem Coletiva de agosto proposta pelo blog Vou de Coletivo!, com o tema "Cartas de Amor".

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Poliglota

Eu nunca disse que as pessoas aqui de casa eram normais. Na verdade, para ninguém ter falsas esperanças, sempre conto histórias confirmando que são bem pouco mentalmente sãs. Dessa maneira, é até aceitável que quem conviva conosco seja um tanto diferente também. É o caso do meu cachorro, Willy, um yorkshire tamanho mínimo, de pelos caramelos e pretos, com alguns fios brancos típicos da idade, e focinho gelado.

Quando adotamos Willy, ele parecia um cachorrinho normal. Talvez até fosse, vai saber. Ele chegou bem jovem, assustado, como se por instinto já soubesse que havia algo bizarro por aqui. Em poucos dias, como qualquer cachorro comum, ele aprendeu a latir. Foi quando percebeu que aquela era uma língua bastante inútil numa casa de humanos e, sem nada melhor para fazer, começou uma busca incessante por outros dialetos.

Pouco tempo depois, Willy estava miando. Sabe Deus onde, mas ele também adquiriu o costume de lamber as patas e se engasgar com bolas de pelos. Mas não havia gatos nesta casa e Willy ficou triste por ter feito tanto esforço para nada. Ele, então, aprendeu a arrulhar, ficar empoleirado na barreira que separa a sala da cozinha e a gostar de se equilibrar em lugares altos. Mas, ainda, ele não encontrou ninguém com quem pudesse trocar duas palavrinhas e, mais uma vez, voltou à sua procura pelo idioma apropriado.

Hoje, Willy tem seis anos — mesmo que sua estatura seja a mesma de sempre — e fala pelo menos umas dez línguas, que vai de mugido a algo parecido com lamúria de almas do outro mundo. E meu irmão jura que há algum tempo o ouve falar “ossinho”, sempre que tem frango pro almoço.


Willy, triste, quando ainda não sabia falar “ossinho”.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Flores


Naquela manhã, foram tulipas. Tulipas brancas, frescas e totalmente fora de estação. Elisa não entendia tanta coisa ali que o fato de alguém ter encontrado tulipas num dia como aquele chegava a ser irrelevante. O que realmente a deixava admirada e confusa era esse alguém saber que ela adorava tulipas brancas mais que qualquer outra coisa.

Precisas como um relógio, as flores sempre chegavam pontualmente às sete. E, desde que começaram, nunca pulavam um dia. Ontem, vieram rosas brancas; anteontem, vermelhas. Sempre foram rosas, até aquele dia. Se ela se esforçasse, poderia até pensar em um punhado de pessoas que lhe pudesse ter feito aquele agrado, mas terminava sem se decidir por nenhuma. E essa era sua grande frustração: era incapaz de determinar com clareza quem poderia ser esse seu admirador.

— Mais flores, hein? — perguntou-lhe o seu vizinho de porta, ao chegar carregado de compras e vê-la parada no corredor, o ramalhete nas mãos.

— Sim, tulipas.

— Estou vendo. São iguais àquelas de plástico que ficam em cima da sua mesa.

Não lhe havia ocorrido tal semelhança. O vizinho encontrou as chaves da própria casa no bolso e enfiou na fechadura.

— Então, ainda não descobriu quem mandou?

— Não. É impossível. Pensei em todas as pessoas que conheço, mas nenhuma delas demonstra nenhuma atenção especial comigo.

— Nenhuma?

— Nenhuma.

— Bom, com certeza você está deixando escapar alguém.

— Talvez. Quem sabe eu sequer conheça essa pessoa.

— Você acha?

— Acho. Não sei. Bom, preciso entrar agora.

— OK. Qualquer coisa, sabe que é só chamar.

— Sei, sim, obrigada. Você é um amigão. Não sei o que faria sem você.

Disse isso e entrou.

A partir daquele dia, Elisa não recebeu mais flores.


Imagem: © Corbis

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Por entre meus dedos

Lembro de quando ela era só uma menininha medrosa, que segurava minha mão para atravessar a rua. Sua mão era pequena e seu olhar denunciava o medo ao ver tantos carros passarem. Então, ela me olhava e obtinha o que quer que precisasse para enfrentar aquela ameaça. E sorria.

Hoje, ela encara seus medos sozinha, enfrenta os problemas e os resolve. Lembro de que ela vinha saltitando me receber com um sorriso no rosto, quando eu chegava do trabalho. Hoje, é ela quem chega do trabalho e vem me visitar. Fez suas próprias escolhas; desafiou-me algumas vezes, aceitou meus conselhos em outras. Nunca duvidei de que se sairia bem, mas temi que sofresse e fraquejasse em alguma parte do seu caminho. Estive ao seu lado sempre que isso aconteceu. Mas, como garota corajosa que era, sempre olhou para frente e prosseguiu.

Agora, ela está se casando. Na porta da igreja, ela segura a minha mão, como fazia quando criança, antes de atravessar a rua. A dela está fria e trêmula. Sinto o tempo voltar àquela época, de quando ela precisava de mim. O tempo que passou rápido demais para eu perceber, que escorreu feito areia por entre meus dedos. Ela olha nos meus olhos e isso parece acalmá-la. Sorri. Respira fundo e contempla seu futuro, ao longe. E prossegue.




"Sometimes I wish that I could freeze the picture

And save it from the funny tricks of time

Slipping through my fingers."

sábado, 1 de agosto de 2009

Correntes invisíveis

O diabo é que nunca me ensinaram a viver com alguém. Sou solitário por natureza; fui criado para sê-lo. Sou como o vento, espírito de liberdade, que jamais admitiria ficar atado a alguém. Podem achar estranho, podem até me chamar de maluco. Maluco, devo mesmo ser. Não é algo que me incomode. É dessa maneira que vivo, no meu mundinho, meu universo, e estou satisfeito. Posso passar dias lá, sem me importar com nada mais. Ninguém mais. Nunca precisei de ninguém.

É certo que tenho amigos. As pessoas gostam de mim, por mais estranho que eu seja. Já percebi que gostam de pessoas estranhas. Aprecio a companhia de cada uma, mas, para ser sincero, elas me cansam. E nenhuma, até hoje, fez-me sentir necessidade de estar perto, de me relacionar, de dividir. De mudar. Até aparecer você.

E, agora, creio que nunca vivi uma situação mais complicada. Quero me doar, quero compartilhar, mas todo meu ser luta contra isso. Sou livre, quando navego no meu próprio universo, e não confio em mim mesmo quando preso a alguém, mesmo que sem algemas. Correntes invisíveis. Sinto-me como se quisessem cortar-me as asas e com meu consentimento.

Às vezes, penso que vivo preso à minha solidão. Mas é tão difícil mudar toda uma vida… Você se declarou disposta a esperar, mas será que me esperaria para sempre?


I never stayed anywhere

I’m the wind in the trees

Would you wait for me forever?


Foto por Zeh

sábado, 25 de julho de 2009

Nunca para ela

Inglaterra, século dezenove. Um casal encontrava-se numa colina verde, ao romper da aurora, ambos sem conseguir dormir. Sorriam, olhavam-se, tocavam-se. Não esperavam aquele encontro, mesmo que parecesse ter sido marcado previamente. E beijaram-se apaixonadamente, causando um leve suspiro. Eles jamais ouviram esse suspiro, que veio do fundo no peito de uma terceira pessoa, que os observava.

Ela estava sentada num sofá, contemplando atentamente o desenrolar confuso da história dos dois namorados, confiando na possibilidade de um final feliz. E o final feliz começava a se delinear na esperada cena do beijo que ambos, enfim, compartilhavam. Torcia fervorosamente por aquele casal havia anos, que, na verdade, correspondiam a exatamente duas horas e trinta minutos. E parecia que, finalmente, eles se acertavam.

Não era o primeiro casal cujo relacionamento progredia perante seus olhos; só naquele dia podia contar quatro. E, junto com as donzelas, ela se apaixonara por cada herói, com cada gesto, cada palavra. Daquela vez, ele fazia bem o seu tipo; moreno, olhos cor de mel, alto, forte. No final, ela nutria até certa dose de ciúme do par tão perfeito; mas, podia se conformar, pois seu amor estaria nos braços de alguém que, sabia, amava-o também. E, assim, ficava satisfeita, mesmo que se sentisse vazia.


O som do telefone interrompeu seu devaneio, como um balde de água gelada:

— Oi, Elisa, sou eu. Estava preocupado com você, nunca mais a vi.

— É… Não tenho saído muito.

— Será que… Gostaria de dar uma volta, tomar alguma coisa?

— Na verdade, estou meio ocupada agora.

— Ah… Certo. Marcamos outra hora, amanhã talvez…?

— É, pode ser. Olha, preciso desligar.


Sim, pois naquele momento começava outro romance. Desta vez, se passava na Irlanda, terra desconhecida e romântica. Seus olhos atentos refletiam aquela luz azulada e uma lágrima, também azul, brotava de seus olhos e começava a rolar por sua face.

— Eu te amo. — Uma voz masculina vinda da tela fez-se ouvir, numa declaração solene e apaixonada.

Mas não para ela. Nunca para ela.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Palavreando

Tenho o hábito de transformar coisas em palavras; um sentimento, um fato, uma lenda, uma imagem. Recentemente, o Léo, do Sessão das Oito, me mostrou uma maneira de transformar um blog em palavras. E me deu de presente o Do Fundo do Mar em Wordle:
Fala, não sou eu escrita ali?

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Improváveis

Uma das minhas melhores amigas é alguém que eu julgava ser muito cheia de pra-que-isso para se relacionar com pessoas normais. Outra das minhas melhores amigas é grossa o suficiente para eu ter tido medo dela, no início. Um dos meus melhores amigos era de um pequeno grupo que só se vestia de preto e não se misturava com reles mortais. Outro, não queria papo comigo no primeiro dia em que falei com ele, mesmo que eu o estivesse ajudando a encontrar a sala de aula.

Uma ruiva metida que se parecia com Scully, de Arquivo X, tornou-se minha amiga depois de um trabalho de escola, do qual também participou outra amiga — que foi quem disse que a ruiva se parecia com a personagem — e outra de quem ouvi falar bem mal, quando eu ainda não a conhecia. As três são, hoje, algumas das minhas melhores amigas.

E o que se poderia dizer de amizades virtuais? De MSN, blog, Twitter... Conheci alguns dos meus melhores amigos numa comunidade do Orkut, enquanto estava procurando o que fazer, no meio da madrugada. Essa amizade já dura três anos. E dura vinte uma outra, desta vez bem real, com uma menina que ia todo dia filar meu lanche, no recreio da escola. E, falando em escola, um dos melhores amigos do tempo de escola do meu irmão é hoje um dos meus melhores amigos, assim como o irmão dele, que conheci depois e é tão especial quanto. E foi através deles que conheci, há poucos anos, mais uma das minhas melhores amigas, prima deles. Uma amizade que começou partilhando séries de TV e que agora nos faz compartilhar vida.

Amizades são improváveis. Não existe receita; saber que se vai gostar de alguém, jurar que nunca poderia gostar de outrem. Não acredito em amizades planejadas e sim naquelas construídas no dia-a-dia, num sorriso, um telefonema, um recado no celular, scrap do Orkut ou reply no Twitter. Não existe regra; o que existe são pessoas diferentes, cada uma com sua personalidade e diversas maneiras de nos encantar. Gosto da surpresa que encontrei em cada um desses meus amigos, não importa quem eles sejam ou foram. São os melhores amigos que poderiam existir. E, assim, eu sigo: fortalecida pelo sorriso de cada um deles.


“Do you need anybody?

I need somebody to love.

And I get by with a little help from my friends...”

domingo, 12 de julho de 2009

Apenas palavras


Vivo do que escrevo e escrevo para viver. Estou em cada palavra que delineio, ao mesmo tempo em que não me pareço com nada que crio. Reconheço cada uma das minhas frases, apesar de muitas vezes não acreditar que pude escrevê-las. Quem sabe não fui mesmo eu quem as escrevi.
Uma, duas palavras, três, uma frase. Pego um pedaço de papel e continuo traçando as malfadadas linhas ditadas pela minha existência. Sem rima, com rima. Prosa, talvez poesia. Mesmo que fosse prosa, certamente poesia. O desespero ataca, quando aparece o sentimento. Então escrevo, escrevo mais do que alguém poderia imaginar. Porém, menos do que poderia, se o canal do cérebro para os dedos não fosse tão longo. Pensamentos se perdem, palavras são esquecidas, sentimentos acabam no limbo de lugar nenhum. Mesmo assim, apesar de tudo, não deixo de escrever.
Eu escrevo, mas minha vida já foi escrita há muito tempo e eu venho apenas copiando as linhas que nunca li. Mas reconheço. Sei que fui concebida na união de duas palavras. Nasci quando o primeiro verso foi escrito. Cresci em cada letra desenhada com lápis de cor. Inventei parágrafos novos, inusitados, clichês, polêmicos, românticos, ácidos. Casei-me com a música que vi no mundo. Reproduzi cada pensamento que pude palavrear. Brinquei com as figuras de linguagem, discuti com os paradoxos, senti as sinestesias. Repeti os pleonasmos, dei vida às prosopopéias. Fui simples como um eufemismo e imenso como a hipérbole. Até que aprendi com cada metáfora e envelheci como as páginas amareladas de um livro.
Morri, quando a inspiração acabou.

"It’s only words
Words are all I have
To take your heart away."* 

*Música: Words