segunda-feira, 5 de abril de 2010

Outra vida

Foi quando, no fundo de uma gaveta, encontrei uma fotografia antiga. Talvez não tão antiga, mesmo que parecesse ser de uma época muito distante, de tanto que a vida mudara, desde então. Os rostos da foto eram felizes, coloridos, sorrisos e olhos brilhantes. Tão diferente de hoje. A sensação era de que, se tirasse uma foto hoje, ela seria toda em preto e branco.

Segurei aquela fotografia por um momento e observei-a. Não senti nada diferente. O aperto no peito, a dor, o coração sangrando já estavam aqui. As lembranças não me invadiram como um turbilhão; elas já rondavam a minha cabeça exaustivamente, como desde sempre. A esperança não voou pela janela quarto adentro, verde e ansiosa por atenção; ela nunca fora embora, mesmo na hora em que tudo o mais se acabou e ela pareceu perdida.

Era outra vida. Lembrava-se bem do olhar tão adorado, tão inesquecível. Também dos maravilhosos momentos. Da aurora da felicidade. Do escurecer da partida. Do abrir-se da ferida, que assim permaneceria durante muito tempo. Peguei a foto com as duas mãos e, sem pena, rasguei-a em pedaçinhos, abandonando-os no fundo da lixeira. Não precisava de fotos para me lembrar de que, um dia, fora feliz.


"In my heart lies a memory
To tell the stars above
Don't forget to remember me, my love"

Imagem: stock.xchng

15 comentários:

Alisson da Hora disse...

Acabei associando o teu texto a um texto do R. Barthes, "A câmara clara"... eu evito olhar fotografias... esquecer é impossível, mas é sempre bom saber driblar o esquecimento...

ah, viajei...

bjs

Andréia Alves Pires disse...

Que bacana... me fez pensar coisas. Bjão, querida!

Jullia A. disse...

EU amo fotografias.
E lembrar do que j'a foi ajuda a lembrar da velha casa onde nascemos. Mas tudo sao teorias..

Bruno disse...

Como havia dito:

"verde e ansiosa por atenção"

Trecho lindíssimo. Como escreve bonito, você Marina. Sobre a esperança, e todo o texto foge do lugar do comum. Você nega o lugar-comum a todo momento e dá um final super bonito pro pequeno momento.

Taí. Se não escreve contos, você certamente escreve momentos. Muito bom!

Fábio Plumari disse...

Momentos assim me fazem pensar que não tenho uma vida só, são várias vidas que tive até essa de agora. E hoje tenho uma vida, daqui uma semana tudo muda...

E ficam as lembranças de vidas passadas, aquela que nós não precisamos mais.

Rebeca Amaral disse...

Ah, lembranças... Nostalgia bateu forte agora!

Beijão!

Nanda Nascimento disse...

Mergulhar em outros momentos, sendo que eles nunca saíram da gente.
Viajei agora!

Beijos e flores!

O Matuto disse...

A memória está aí para ser acionada, e se nao conseguir mais lembrar de nada..mesmo querendo não consegue mais... é pq essa coisa ou pessoa "acabaram' para você.

Mas bem, vamos as fotos...elas são o "um dia" sempre...a única forma de fazer diferente é tirando constante novas fotos...mas jamais elas vao substituir a força que seleciona da memória - a força que nso joga na cara o que foi e o que nao foi importante...

abs!

Moca disse...

às vezes me vejo em fotos e não me reconheço. os sorrisos eram mais.

Daniela Filipini disse...

É, também já me senti assim, e dói.

Thaís disse...

Marina...lindo.
Senti aquela dorzinha guardada tão cuidadosamente pulsar (porque ela também sempre esteve aqui).
Eu evito olhar fotos, as vezes. Porque todas as vezes que olho, eu entro nelas e é muito, muito difícil sair.
Tem uma que fica sempre ao lado da minha cama...e é a que mais dói olhar...mas decidi que só olhando para ela todas as noites eu entenderia...o nunca...e o mais...

Beijos...e obrigada por entrar na sala ^_^

Dois Rios disse...

Marina,

Nisso, quando guardam para sempre um instante que nunca se repetirá, as fotografias não mentem - esse instante existiu mesmo. Porém, a mentira consiste em pensarmos que aquele instante viveria para além daquele registro.

Beijo,
Inês

Juliana Mendes disse...

as vezes eu to remexendo aqui o pc...
e encontro uma foto velha, que na verdade nem era p tá aqui..
eu n penso em transforma-lá...
só penso no momento, qe eu n transformei!
=s

Bruno Malveira disse...

Não sei se você já botou aqui, mas na primeira frase eu lembrei de um outro texto que você escreveu, que em vez de rasgar, a personagem quebra o porta-retrato.
Acho incrível você conseguir se contentar com apenas momentos, se é que você realmente se contenta em não escrever mais sobre os personagens.
Beijão, Ma!

Wi disse...

Nesses momentos, temos a memória, que pode ser a melhor amiga ou a maior vilã.