terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Relato de um assassino

É preciso ter sangue frio. Ser calculista e, acima de tudo, não se deixar abalar por sentimentalismos inúteis. As emoções não devem existir; pena, compaixão, arrependimento. A única coisa que se permite sentir pela vítima é desprezo. Talvez um prazer insano durante o ato, típico daqueles que estão acostumados a tirar vidas.
É o que sinto agora, enquanto corto cada parte de seu corpo, separando os pedaços, retalhando. É mais interessante quando é violento, sangrento. Você agoniza, mas não morre. Ainda. A lâmina afiada torna a investir contra o seu corpo, repetidamente, com força, com insistência. Minha expressão continua impassível, mesmo quando cravo os dentes na pele, estraçalhando a carne. O sangue continua a jorrar e espalha-se pelo chão, manchando tudo em volta com um curioso tom de vermelho-berrante.
Um sorriso amargo surge em meu rosto. Sei que está morrendo. Quero que esteja; preciso que esteja. Apesar disso, sinto ainda o pulsar da vida dentro do corpo frágil. Cerro os dentes. Não sei mais o que fazer.

Matar você em mim tem sido uma tortura. Juro que dói mais em mim que em você.

"You know she's a little bit dangerous"

#MemeDasAntigas: Dia 21/12 - Em 2010 eu quis matar...

Imagem: GettyImages

7 comentários:

Ana Karolinni disse...

Adorei o texto!

Larissa Bohnenberger disse...

Marina, tu tá demais nestas últimas semanas... é só o que eu tenho pra dizer!

Leila disse...

Poxa, parece que vc tem adivinhado os acontecimentos de minha vida, Mari. `` Matar você em mim tem sido uma tortura. Juro que dói mais em mim que em você.``
Amei o texto! Beijos

Rebeca Amaral disse...

Caramba, senti cada palavra perfurando meu peito. Também preciso cometer uns homicídios.

Eduardo Trindade disse...

Dói, definitivamente dói. Apesar de que todos deveríamos ser um tanto assassinos de vez em quando.
O consolo é que tuas palavras, mesmo quando sangrentas, são excelentes.
Abraços, obrigado pela companhia blogsférica em 2010 e feliz Natal!

Leonardo disse...

Achei que estavas escrevendo um conto de terror, mas no fim vi que se tratava de uma história romântica. Parabéns. Muito bom texto.

Ana Karolinni disse...

Marina, achei seu texto simplesmente fantástico.
Disseste em poucas palavras aquilo que nem no momento auge do que estava sentindo consegui explicar.
Gostaria de sua permissão para postar seu texto em meu blog, com sua autoria é claro.
Adorei!