sábado, 2 de abril de 2011

Do outro lado

— Moça! Moça! Pelo amor de Deus, moça, você está bem?

Não, ela não estava. As dores que sentia pelo corpo todo eram pouco além de insuportáveis. Apagaria tão logo tivesse forças para fechar os olhos. Sim, só mais alguns milímetros...

— Moça? Espera, não dorme. Você precisa ficar acordada.

Não dormir... Mas dormir seria tão fácil. Talvez as dores sumissem, talvez voltasse para casa... Casa... Tinha uma casa. Uma casa da qual ela cuidava, pessoas das quais ela cuidava. Não um lar; mas, ainda assim, uma casa. Queria dormir e voltar para casa.

— Moça, está me ouvindo? Qual o seu nome? Responde, moça.

Nome? Lembrava de uma vida, mas não de um nome. Lembrava de pessoas, da casa, do trabalho... Lembrava de um rosto pequeno, sorrindo para ela, e de vários rostos idosos em camas de hospital. Mas apenas o rosto pequeno insistia em permanecer na sua cabeça, como se pedisse que não o esquecesse. Alguém que precisava dela. Talvez a vida estivesse mais impregnada nela que o nome, do qual não se lembrava.

— O que foi que houve com ela?
— Não tive culpa! O sinal estava aberto. Ela estava atravessando a rua distraída e não viu meu carro. A cabeça dela está sangrando e ela não responde.

Pela fresta dos olhos, conseguia ver os dois rostos apreensivos observando-a. Alguém verificava suas vias aéreas superiores. Lembrava das etapas de primeiros socorros e a segunda pessoa aparentemente sabia o que estava fazendo. Devia ter formação médica. E ele chegou rápido; deviam estar próximos ao hospital. A outra pessoa era um homem e parecia perdido. Como ela.

— Ela vai ficar bem?

Não se lembrava, em toda a sua existência, de alguém se preocupar com ela. O socorrista lutava por sua vida, mas aquele homem a olhava com dolorosa preocupação, como se ele se importasse. Era um pensamento confortante: ter alguém que cuidasse dela, para variar. Os pais nunca foram muito atenciosos. O pai de seu filho a abandonara tão logo soube da gravidez. E o pequeno não tinha idade de cuidar de ninguém. A vida dela era cuidar de pessoas: o filho, doentes, idosos... Devia estar justamente saindo do plantão antes do acidente, cansada e sonolenta. Nunca esteve do outro lado. Adorou a sensação.

— Ela não parece bem. Melhor levá-la logo para a emergência. Vai entrar na cirurgia.
— Ela vai viver?

Ela sabia responder essa. Não sentia mais dor, a não ser o aperto no peito ao lembrar-se do rosto de seu filho. Segurou a mão do homem desconhecido, antes de ser erguida do chão. Queria se desculpar, mas só conseguiu sussurrar, com o pouco de forças que lhe restava:

— Artur... Cuide... dele.

Fechou os olhos.


"As folhas, quando caem,
nascem outras no lugar."*
Imagem: GettyImages
*Música: Folhas de outono


17 comentários:

Dona Cor disse...

Quase chorei =~

Luciana Vannucchi de Farias disse...

Puts... essa mexeu.

Beijão, querida!

µαri µαtos disse...

vida breve...

Camila disse...

Me lembrou de A hora da estrela, da Clarice Lispector. Eu sempre quis saber o que se passa na cabeça das pessoas que estão entre a vida e a morte assim. Ainda bem que a ficção nos permite tentar "entrar" na mente desses personagens. :)

Leonardo Xavier disse...

Essas questões de últimas palavras e pensamentos na hora da morte só me lembra uma cena. Se eu não me engano de Top Gun, onde um ator vem com uma frase toda bonitinha e poética para as últimas palavras do personagem e um piloto responde dizendo que as últimas palavras dele seriam palavrões.

Leila disse...

nossa! chega a doer...

Luciano A.Santos disse...

Eita! Esse falou alto em mim. Não gosto muito de últimas palavras, a genta pode não saber ao certo o que elas querem dizer...

Belo texto.

Abração.

manuela barroso disse...

De uma ternura contagiante.
Chega a doer!
Abraço
manuela

Rebeca Amaral disse...

Essa machucou. Realidade, realidade...

Saudades daqui.

Um beijo.

Bruno Portella disse...

Lindíssimo, Marina!

"Nunca esteve do outro lado. Adorou a sensação."

Essa parte é uma construção fantástica! Confesso que não entendi muito bem as relações do final, Artur, cuide de quem. Talvez eu não tenha lido com a devida atenção.

Relerei.

Mas é lindo do começo ao fim. Quase parece que vc já passou por uma situação assim de tão bem que ficou.

"Nunca esteve do outro lado. Adorou a sensação."

Isso é demais!

Eduardo Trindade disse...

Closer...

Muito bom, minha amiga!

Magna Santos disse...

Já é a 3ª vez que tento comentar e nada, sempre dá bronca. Espero que desta vez dê certo.
Mas vou ser breve. Só pra dizer que o texto nos suspende da primeira à última linha.
Ficamos, portanto, do lado de cá ainda meio suspensos.
Beijos.
Magna

Francilene Suri disse...

Nossa ...

Disse tudo.

Tô meio atordoada ainda.

Muito bom!!!!

Beijos.

Luciana Vannucchi de Farias disse...

Passando pra te desejar uma ótima semana, querida!!!

beijocas...

Fernanda disse...

Texto muito intenso...mais ainda por saber que existem tantas pessoas assim por aí, sedentas de atenção e carinho.

Larissa Bohnenberger disse...

Nossa! Forte!

Wi disse...

Apesar de triste, lindo!
E isso pode estar acontecendo agora mesmo, em algum lugar desse mundo...