domingo, 30 de março de 2014

Filme ou Livro?: Laranja Mecânica

Já tinha assistido ao filme de Kubrick, há alguns anos, e sempre pensava em ler o livro, mas ficava de ler, ficava de leeer e nunca colocava o plano em prática. Está certo que eu nem tinha o dito-cujo, mas isso era fácil de arranjar. Certo dia, fui à livraria e vi essa edição linda e fiquei louca, pensando seriamente em comprar. Terminei comprando mesmo, só que de presente para um amigo, de aniversário. Confiava o bastante no livro, afinal o filme já era genial. Então, apareceu a oportunidade para ler, no desafio, e eu peguei emprestado do meu namorado e li. Não a edição linda, pela qual me apaixonei, mas foi uma edição legal; com um prefácio legal, nota do tradutor e o glossário atrás. Mas eu não o usei. Não muito. Não a hora toda. OK, só algumas palavras.

Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, é uma história narrada por Alex, um adolescente vivendo num ambiente futurista, com gírias próprias e uma tendência grande à violência. Quando Alex é preso, ele vira uma cobaia do governo numa experiência de lavagem cerebral e suposta "cura" da violência. A quem já viu o filme, não tenho muito mais a dizer; não é um daqueles livros cujo filme muda tudo e faz uma bagunça com a timeline da história (filmes de Harry Potter, oi?). Pelo contrário, o filme enriquece ainda mais a obra, como se ela já não fosse rica o suficiente. Tirando uns poucos detalhes, como a idade de Alex, o protagonista, e seus amigos (no livro, eles têm uns 15, 16 anos; no filme também, mas Malcom McDowell tinha 28 quando interpretou Alex), assim como o final da história, o filme só tem mesmo a acrescentar.

Sobre o final da história, como fiquei sabendo no prefácio, há uma explicação para ter sido diferente. A edição britânica, e original, do livro tem 21 capítulos. Nos EUA, o livro foi publicado com 20 apenas; e foi esta versão que acabou virando filme. Alegaram que "por razões conceituais", o final original mais "otimista" não fazia sentido. Pessoalmente, eu gosto mais do final americano; mas entendo o final de Burgess. Entendo o motivo de ele ter escrito o final daquela maneira, de que o livro inteiro trata da passagem de Alex da adolescência para a idade adulta e que essa maturidade só se completa com o último capítulo. Para o contexto todo, de amadurecimento do personagem, acho justo os 21 capítulos. Mas, como história, e excluindo toda a questão que Burgess quis abordar, prefiro o final do filme. Poderia destrinchar mais um pouco o meu pensamento, mas não encontrei uma maneira de fazer isso sem ser spoiler; ainda mais porque eu teria que falar sobre o último capítulo, o que só existe no livro, que nem todo mundo que gosta do filme leu. Então, vamos considerar apenas que prefiro o final do filme.

O livro, assim como o filme, é estranho e viciante. Tem aqueles neologismos, as gírias nadsat, que são muito mais complicadas quando você está lendo, do que no filme, quando se tem imagens para ajudar a entender. Mas, depois que você pega o embalo, a coisa flui muito rápido. E você fica com aquelas palavras na cabeça durante bastante tempo. Como se o estranhamento tivesse passado e, de uma hora para a outra, você estivesse naquele mundo. Aquele estranho mundo, num futuro estranho, com palavras estranhas. “As queer as a clockwork orange.”

--
Esta é uma resenha para o Desafio Literário do Tigre 2014, do blog Elvis Costello Gritou Meu Nome. O tema de Março é "Filme ou Livro": ler e resenhar um livro do qual você já tenha visto o filme, fazendo as devidas comparações. Para saber mais sobre o desafio, entre na fanpage ou saiba mais no blog.

4 comentários:

littlemarininha disse...

Legal, Ma. Eu só vi o filme, mas o livro tá na minha estante, esperando a vez de ser lido.
Vou passar ele na frente de alguns outros ;)
Beijo!

Dayane Pereira disse...

Adorei a resenha; Eu também estranhei no início, mas aos poucos a gente acostuma com o vocabulário nadsat, e isso torna a história ainda mais interessante, enriquece.
Me apaixonei por Alex do livro mais que do filme, pq no livro a gente vai "mais fundo" né.

Thiago Dalleck disse...

Oi Mari, olha eu por aqui de volta! Ótima resenha! Eu li essa versão especial ano passado e achei incrível! Tem algumas cartas e entrevistas do Burgess e, se não me engano, até do Kubrick. Pelo que me lembro, a explicação para os finais diferentes pode ter sido porque o capítulo 21 é um epílogo da versão original (britânica) que não foi incluída na americana (que foi a que o Kubrick levou em consideração pra adaptar pro filme). Também concordo que, para o filme, o final do Kubrick é melhor ter acabado ali mesmo, deixando a "pergunta" no ar. Mas no livro, até achei pertinente a continuação como epílogo.

Acho o Burgess um gênio por fazer uma história que parece tão complicada ser de tão fácil compreensão. Com essa linguagem nadsat, o livro poderia ser tão difícil de ler quanto, sei lá, Ulysses do James Joyce. Mas a genialidade está justamente em conseguir implantar um novo vocabulário no leitor e fazê-lo absorver sem se dar conta. Quando terminei o livro, eu fiquei tipo "e agora? quero mais histórias psicóticas desse universo!" haha

Quem me dera escrever algo assim um dia!
Beijo!

Marina disse...

Dalleck, que bom te ver aqui de volta!!

Depois vou dar outra olhada na edição fodona, quando encontrar na livraria. Não acho que o capítulo 21 foi escrito como epílogo; na minha edição, falam que o sentido do livro ter sido escrito com 21 capítulos é que a idade adulta, na Inglaterra, só é atingida aos 21 anos, e isso representaria o amadurecimento de Alex. Mas foi removido da edição americana porque realmente ficou melhor sem ele. Pessoalmente, acho que Burgess quis meio que justificar a violência como uma "coisa de jovem" e é por isso que não concordei com esse final. Talvez seja uma realidade da cabeça dele, mas não o é na minha, sabe? Mesmo que ele seja um gênio e eu... quem sou eu? Hahaha!

Beijos. Adorei seu comentário.